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sábado, 1 de setembro de 2012

A neurociência e a biologia da cognição a serviço da epistemologia descolonial




A neurociência e a biologia da cognição a serviço da epistemologia descolonial

Athanis Rodrigues
Mestrando pelo programa de pós-graduação em Direito da UFSC

         Em sua obra “Muito além do nosso eu”, o neurocientista Miguel Nicolelis antevê, utopicamente, um futuro não muito distante em que a interação cérebro-máquina em interfaces virtuais possibilitará a libertação de nossa mente pensante das limitações orgânicas de nosso corpo físico. Em outras palavras, propõe que a neurociência pode funcionar como agente de transformação social, no momento em que a união entre cérebro e máquinas pode mudar nossas vidas e nossas relações humanas, sociais e afetivas.

         Dentre as inovações da neurociência, incluem-se neuropróteses corticais instaladas no sistema nervoso central, possibilitando que os impulsos eletro-magnéticos de nossos cérebros enviem sinais motores para máquinas robóticas acopladas em nossos corpos, como se efetivamente fossem seus membros. Com esta tecnologia, pessoas que sofrem de paralisia poderão recuperar a mobilidade corpórea. Não obstante, há ainda um exoesqueleto de corpo inteiro, a ser utilizado pelo projeto “Andar de novo”, amostra do Dr. Gordon Cheng, da Universidade Técnica de Munique. De sua parte, Nicolelis tem empreendido projetos na cidade de Natal, no estado do Rio Grande do Norte, de modo a possibilitar a educação de comunidades carentes. Assim, o ambicioso Campus do Cérebro, parte do Instituto Internacional de Neurociências de Natal Edmond e Lily Safra, inclui a criação de uma escola pública de ensino integral, viabilizando um projeto político-pedagógico inspirado na união das ideias de Paulo Freire e Alberto Santos Dumont (p. 486).

         Entretanto, a anunciação mais impressionante da obra parece mesmo ser a “brainet”, uma nova rede mundial de comunicação intersubjetiva em interfaces virtuais, que possibilitará a comunicação de vastas populações humanas sem que necessitemos escrever ou pronunciar, oralmente, uma só palavra. Em outras palavras, a comunicação ocorreria por meio único e exclusivo de nossos pensamentos, atingindo em cheio o atual sistema midiático capitalista que, monopolizando as informações tecno-científicas e político-econômicas, impede que o acesso a informação se desenrole de maneira efetivamente democrática.

         No mesmo sentido, a biologia da cognição de Maturana e Varela, em sua obra “Àrvore do conhecimento”, bem como “Os passos para uma mente ecológica”, de Gregory Bateson, fornecem elementos para construirmos a teoria do conhecimento humano, gerando, por conseqüência, uma nova forma de perceber o mundo que nos rodeia. Neste sentido, a obra destes biólogos e antropólogos, unidas aos avanços da neurociência atestados por Nicolelis e Cheng, geram implicações numa seara de crucial importância para as ciências humanas: a epistemologia, ramo específico da filosofia que trata das formas segundo as quais o ser humano vai conhecer seu próprio mundo – exterior e, por que não dizer também, interior.

         Não se trata de misticismo ou ficção científica: os avanços tecnológicos na interação cérebro-máquina a partir de interfaces virtuais, vai gerar uma nova forma de relacionamento humano, social e afetivo, exigindo, para tanto, novos paradigmas éticos e políticos. Em razão destas descobertas, o presente trabalho intenta averiguar quais seriam suas contribuições para um novo ramo de epistemologia que tem emergido do pensamento de teóricos e filósofos latinoamericanos, indianos e africanos: a epistemologia descolonial.

         O termo epistemologia descolonial refere-se a uma nova forma de encarar as relações socioeconômicas, políticas e culturais entre os países do Norte do planeta e aqueles do Sul. Ateste-se, neste desiderato, que o período colonial ainda não terminou, apenas adquiriu novas facetas, reorganizando-se a partir das novas divisões internacionais do trabalho. Neste sentido, vivemos num período pós-colonial. O jurista Eugênio Raul Zaffaroni, ministro da Suprema Corte argentina, já dissera, há alguns anos, que vivemos num período de tecno-colonialismo, no qual a dominação e colonização socioeconômica e política deram lugar a uma nova forma de controle dos países de economia mais fraca, por meio da monopolização dos avanços tecnológicos.

         Neste sentido, as inovações trazidas pelos biólogos e neurocientistas supracitados fornece subsídios para discutirmos a “descolonização da subjetividade”, expressão utilizada por outro pensador do descolonialismo, Walter Mignolo: seria o caso de perguntarmos, por exemplo, como uma interface virtual de comunicação intersubjetiva como a brainet possibilitaria novas formas de mobilização popular, organização política e relacionamento social. Como serão as novas “primaveras dos povos”, períodos de mobilização de massas que realizam revoluções culturais, com o advento destas novas tecnologias? É perseguindo as respostas para perguntas como essa que o presente trabalho se concretiza.


REFERÊNCIAS


LANDER, Edgardo (Compilador). La colonialidad del saber: eurocentrismo y ciencias sociales, perspectivas latinoamericanas. Buenos Aires: Clacso, 2003.
MATURANA, Humberto R.,; MAGRO, Cristina; PAREDES, Victor. Cognição, ciência e vida cotidiana. Belo Horizonte: UFMG, 2001.
MATURANA, Humberto R.,; VARELA G., Francisco.A árvore do conhecimento: as bases biológicas do entendimento humano. Campinas: Psy II, 1995.
MIGNOLO, Walter. Epistemic disobedience, independent thought and de-colonial freedom. In: Theory, Culture & Society. Los Angeles, London, New Delhi, and Singapore: SAGE, 2009. V. 26. p. 1-23.
MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à educação do futuro. São Paulo: Cortez; Brasília: Unesco; 2000.
NICOLELIS, Miguel; NICOLELIS, Giselda Laporta. Muito além do nosso eu: a nova neurociência que une cérebro e máquinas e como ela pode mudar nossas vidas. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
WALSH, Catherine; MIGNOLO, Walter; GARCIA LINERA, Álvaro.   Interculturalidad, descolonización del Estado y del conocimiento. Buenos Aires: Del Signo, 2006.
ZAFFARONI, Eugênio Raúl. Em busca das penas perdidas: a perda de legitimidade do sistema penal. 5.ed. Rio de Janeiro: Revan, 2001.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

7 teses sobre a vida





7 teses sobre a vida

            1 - O simples fato de você estar lendo a este conjunto pretensioso de teses é o melhor indicativo de que a sua vida, como a minha, carece de sentido absoluto. Nosso primeiro gesto para com a vida é aceitá-la em suas discrepâncias, nem sempre inteligíveis a partir de ferramentas racionais. Nem tudo o que passa pela vida necessita sentido, justificativa, causa, razão, verdade fundamental/fundante. Aliás, retifique-se: nada que passa pela vida necessita desta parcela de situações. Ocorre necessariamente que todas as narrativas, todas as ideologias, todos os discursos e práticas que quiserem conferir um sentido unívoco para a vida de um ser humano, ou mesmo para as vidas de vastas populações massificadas, merecem suspeita. Esta pluralidade não é marca exclusiva de nossa época, razão pela qual não perco meu tempo aqui diferenciando modernidade de ultra/super/pós-modernidade, discussão plausível em apenas algumas cadeiras de pós-graduação em ciências humanas (e talvez alguns gabinetes que funcionem como centro de decisões políticas locais, regionais, nacionais ou transnacionais). Fiquemos atentos: toda tentativa de conforto na obtenção de uma resposta, toda tentativa de satisfação libidinal em gozar o usufruto de um objeto de desejo, toda tentativa de cristalização ritualística para uma perpetuação costumeira e social de um hábito qualquer, toda série de expedientes e procedimentos logicamente encadeados para a tessitura de um significado absoluto para se viver a vida, totemizado em forma de arte ou ciência, só irá nos conduzir à sombra anunciada pela psicanálise: a morte. Viver não se trata apenas do conjunto de forças que agem contra a morte, resistindo a ela. Viver é exatamente aproveitar a situação inevitável e irremediável da morte para, a partir dela, fecundar o novo. Daí porque o significado de uma vida só pode advir após sua cessão. É nisto que reside a atualidade quase extemporânea de Sócrates, que transcendeu os obstáculos do tempo mais por um comportamento que por uma obra.

2 – A busca pela felicidade só pode ser uma busca tola, pateta ou patética. Àqueles que acreditam que a vida significa a luta e o trabalho incessantes no sentido de suspender temporalmente os breves intervalos de prazer que encontramos pelo nosso caminho – tornando-os  mais vastos, mais dilatados no tempo, quiçá contínuos – só resta uma vida de frustração, desânimo, tristeza e depressão, estas sim, talvez contínuas. Nosso corpo é palco de uma guerra interna. Nesta disputa dialética, não há vencedores. Esta é a lição existencialista de pensadores como Sartre, ou absurda, a partir de Kafka ou Camus: o que somos está para ser lançado, não está dado, pode se transformar e necessariamente vai transmutar, é na transfiguração que o ser, no tempo, se manifesta, razão pela qual a existência, e toda sorte de iniqüidades, direitos e avessos emergirão, restando que o que realmente somos, enquanto indivíduos, é um processo ininterrupto, onde as regras do jogo são construídas no próprio jogar, jogo de estratégias e improvisos, no palco que é a vida, peça teatral sem ensaio prévio. Independentemente da concretização de nossos objetivos mais ternos, a felicidade e a tristeza virão em doses desiguais, restando alocar a vida, e o sentido que queremos construir para ela, fora, além, muito além desta dualidade limitada e egoísta entre prazer e sofrimento, entre felicidade e tristeza, entre gozar e brochar. Não nos esqueçamos: no paraíso que projetamos virtualmente para nossas vidas pode se esconder o inferno do qual tentamos sempre nos afastar. Este inferno, indo contra o filósofo já citado, não é os outros: somos nós, nós mesmos, do eu para o consigo.

3 – Disse o grande poeta português que a arte é uma prova (cabal, diria eu) de que a vida não basta. Com isso quis dizer que a vida só se preserva na eterna novidade do devir. O que eternamente-retorna igual e idêntico, e a arte o comprova, é o íntimo desejo humano por reorganizar a natureza e a vida, conferindo-lhe um pouco de si, um pouco da parcela de sua personalidade, um pouco de sua criatividade, ocultada historicamente por tantos procedimentos cruéis de dominação da subjetividade. Estando sempre para ser construída ou reconstruída, a vida é o espelho da arte: as demandas existenciais da vida são a prova de que a arte, por si só, já é capaz de reorganizá-la. Então deixemos de lado esta postura meramente contemplativa para com a obra de arte. A obra de arte é a prova de que a vida de alguns seres humanos não lhes bastava, e que, para que se bastasse em sua angústia existencial (que também eternamente lhes retornava), resolveram forjar um novo universo, criando novas formas de viver e de encarar a vida, a partir da reorganização das matérias-primas (físicas e emocionais) mais singelas. A lição da arte é que a arte extravasa seus próprios limites: a arte só é arte porque, ao mesmo tempo que é trancafiada num museu antiquado, faz política, faz mentalidades, faz subjetividades, faz governos, faz nações, faz culturas, faz todo tipo de criações necessariamente humanas. Então a própria vida talvez seja, em cada ser humano – se decidirmos encarar a todos como artistas – a maneira segundo a qual cada um escolheu fazer arte. Lembro-me de Augusto Boal quando diz que ser humano é ser teatro: antes de mais nada, agimos. A ação torna a todos atores. Mas nossa ação não possui roteiros, então improvisamos. Sendo atores improvisadores, somos ao mesmo tempo roteiristas. Também figurinistas, despindo-se e vestindo-se tantas vezes ao dia que só faz sentido analisar nossas pequenezas sob este viés cênico. Ao final, não há quem nos dirija (embora Boal soubesse, como eu e você sabemos, de todos os aparatos de dominação e opressão que existiram durante a história da humanidade). Mas com isto queria infundir outra lição existencial: angustiadamente jogados no palco da vida, é preciso que dirijamos as nossas próprias ações. O final do espetáculo pode infundir sensações e emoções indizíveis em nossa plateia – e nós temos total responsabilidade quanto a isso.

4 – Perpetuar a espécie é um tipo de discurso malévolo que nos faz pensar que é mais importante e divertido ter filhos que são iguaizinhos a nós mesmos (em defeitos e qualidades) do que participar de um novo tipo de criação de indivíduos, no sentido de um engajamento maior e coletivo na criação daqueles seres humanos que enfrentam dificuldades existenciais como fome, sede, desnutrição, ausência de afeto. Há por aí uma parcela imensa de indivíduos carentes de amor: eu e você somos dois exemplos pequenos desta imensidão. Há por aí uma parcela gigantesca de indivíduos carentes de tudo: amor, afeto, carinho, acesso, chance, convicção, coragem, comida, água, cobertores, banhos, educação, oportunidades, arte, emoção. Poucos países não possuem pelo mesmo um indivíduo que se encaixe nesta categoria. Então pergunto: por que encerrar nosso potencial de educadores neste movimento narcísico que é a perpetuação de si mesmo, do eu, do ego, numa miniatura de nós, com nossa carga genética, e com a herança de se sentirem obrigadas a serem, senão melhores, pelo menos iguais a nós, em conquistas e frustrações? Será que nas creches, nas favelas, nas grandes casas ricas da elite que se trancafia a si mesma em condomínios, nas ruas, nas escolas, nos asilos, nas prisões, não existe uma porção imensa de seres humanos aguardando, ansiosa e angustiadamente, por aqueles que vão auxiliar em sua criação, e em sua constituição enquanto seres, efetivamente, humanos?

5 – Nunca duvidemos da parcela de amor e ódio que cada ser humano carrega dentro de si. Não nos esqueçamos, sobretudo, de que o amor e o ódio apenas dependem de estímulos para se colocarem no mundo e se multiplicarem. A vida de ódio gera apenas mais ódio, e esta confabulação energética não é apenas o que se pode chamar de coincidência, ou biodinâmica físico-molecular, ou cinética química. O gesto de amor é tão avassalador quanto o gesto de ódio. Aliás, o amor é tão ou mais violento que o ódio: mais violento no sentido de abalar com muito mais vigor a ordem estabelecida. Cada atitude, cada comportamento que inspire o amor, ou que seja sincero em transparecer o amor que nutre e legitima sua ação; e, da mesma forma, cada comportamento que inspire o ódio, ou que seja sincero em transparecer o ódio que nutre e legitima sua ação; ambos, enfim, possuem a mesma potência criadora. E podemos rapidamente ir a dois extremos ilustrativos desta colocação objetiva: Hitler e Gandhi. Quem foi mais violento? Foucault, Zizek e eu achamos que foi o segundo. O motivo é simples: ele mostrou que a guerra pode ser feita com a paz, e isto mudou todo o jogo das relações políticas e econômicas do poder neocolonial estabelecido.

6 – As drogas mudam a vida das pessoas. Mas não são culpadas ou responsáveis pelo bem ou mal que causam na vida destas mesmas pessoas. Ser responsável para consigo e para com o mundo significa dosar que tipo de vida teremos, e qual o lugar das drogas nesta modalidade de viver que erigimos para nós mesmos. Contra toda sorte de preconceitos, saibamos que cada droga possui sua história de vida e seus contributos para o ódio e o amor, para a guerra e a paz, para a economia e a política. Mas, sempre se trata de seres humanos: do mais simples ao mais complexo, da Revolução Francesa à colocação de Margaret Tatcher de que “não existe, de modo algum, algo como a sociedade”, da guerra mais sanguinária, do holocausto e das bombas atômicas – às poesias mais doces, aos goles de vinho mais enamorados, aos sexos mais amorosamente bem feitos, do estado de consciência racional ao estado de consciência transindividual alucinógeno: sempre se tratam de seres humanos. Esta tese não é bem sobre drogas, é para nos atentarmos de que estamos falando de seres humanos, seres humanos, e aquém ou além de qualquer antropocentrismo ignorante para com a vida, é para que nos lembremos que falamos de criação, sensibilidade, medo e arte, talvez alguns caracteres elementares na vida de seres humanos radicalmente diferentes.

7 – A vida não é apenas dinheiro, fama, luxo, felicidade, ciência, arte, beleza, progresso, perseverança, verdade, benemérito, ordem, economia, política, produção-reprodução, dominação, emancipação, opressão, guerra, amor, ódio, emoção, projeto de poder. O que melhor caracteriza a vida é sua parcela inominável. O mais sincero da vida é o inominado, o anonimato. No mudo, no surdo e no cego do cotidiano, a vida se confabula magicamente num entrelaçamento de existências, sejam humanas ou inumanas, cuja graça efêmera é inefável. Não pode ser dita, nem desdita, porque é indizível. Nos cala, mas também nos ensurdece e cega. É que vivemos, estamos condenados a viver, e caso queiramos o gozo absoluto da morte de maneira antecipada, deixaremos de vasculhar seu misterioso enigma, que não possui mapa, e cuja aventura é feita de encontros imprevisíveis e desencontros impensados. Numa cartografia da incerteza, vamos assinalando o caminho com nossos próprios passos, porque já diria Antônio Machado que o caminho é propriamente as marcas que nossos pés deixaram. Inexistindo algo que nos gere um conforto que conduza a inércia, o Sol, ritualizado por tantas gerações como Deus abençoado, simboliza, deitado no horizonte, a necessidade mais vital da vida: continuar caminhando.


sexta-feira, 25 de maio de 2012

Pânico (s)em sentido





Pânico é estar ausente de si mesmo. É deixar o vazio da existência preencher o nosso ser. É permitir a ausência de sentido conquistar nosso presente.

Passado e futuro só podem existir no agora. É só no agora que existem porque só o agora pode construí-los - toda empreitada é imediatista, objetiva mediatizar o imediato. O sentido é sempre forjado no instante-já. Por isso a existência precede a essência, tal qual a ação precede a ideia, tal qual a experiência precede o relato - o que não impediu a filosofia ocidental europeia de inventar uma ordem natural imutável a priori, uma abstração metafísica fundamental e uma argumentação dialética sobre as ilusões do real.

A náusea sufocante, que dói na espinha e gela o peito, que põe em vertigem o corpo inteiro, que percebe a essência do ar rarefeito - a pior das dores emocionais é consciência da ilusão, que passa a des-iludir. A desilusão fundamental é a morte. A morte é o motor vital do humano. A carne vai perecer. Da mesma forma, a felicidade, a aventurança, os momentos singelos, as grandes conquistas políticas, as emoções mais confiáveis, os lugares mais belos, as experiências mais singulares, os toques mais leves, os contatos mais saborosos, as certezas mais tenazes, as despedidas mais intensas, as lágrimas mais rosas, as florestas mais encantadoras, as lembranças mais mágicas, as atitudes mais corajosas, as inefáveis obras artísticas.

A morte é a experiência dúplice da inexistência: quem morre experimenta a inexistência assim como quem ainda vive. Será? Experimentar é uma categoria humana? É da consciência do existir que deriva a experiência? Ou o não-ser também experimenta? O que não é experimenta? A inexistência pode ser experimentada? Mais acabadamente: a inexistência tem existência? Ou se trata de um pequeno disfarce, uma arapuca de linguagem? Se partirmos do pressuposto do existente, captar a inexistência é necessariamente dar-lhe uma existência, ainda que em instância linguística. A ideia ficaria mais simples se disséssemos: a inexistência inexiste, e só existe a existência. Tautologias pedagógicas, ensinando lições básicas de ontologia. O ser é. O não-ser não é. A existência existe. A inexistência inexiste. No entanto, ao questionarmos sobre a possibilidade da inexistência adquirir existência, ainda que numa instância meramente linguística, estamos diante de uma ruptura filosófica, posto que nosso foco epistêmico se altera.

O que quero conhecer? O que vou ou o que posso conhecer? Posso afirmar, de antemão: a existência pode ser percebida. Logo, conhecida. Mas o que ocorre se eu afirmar, concomitantemente: a inexistência pode ser percebida. Se percebemos a inexistência, não lhe damos existência com nossa cognição? Não é nossa linguagem, semioticamente, que cria esta miragem? Esta miragem, este holograma invisível, esta abstração cognoscível não passa, desta forma, a existir concretamente? Não é concreta ainda que impossível de ser captada pelos cinco sentidos humanos? Não existe, de fato? Se conhecemos a uma ausência, metafisicamente desenhamos uma presença. A presença da ausência faz renovar semiologicamente o significado do ausente, que, assim, movendo-se com seus significantes, torna-se presente. Com um detalhe: está presente no presente, mas é presente passivo, presentemente construído sem protagonismo próprio, apenas alheio. A ausência ressignifica a presença, lapida e talha em novas fissuras a figura do ser presente que, ausente, faz com que se experimente a presença de sua ausência, que, assim degustada, também ganha concretude - ainda que metafísica, abstrata, num nível semiológico -. E o ser passa a ser concebido em integração com seu dúplice metafísico, falseado por abstração externa. O ser presente é a soma de sua presença física com a concepção presencial de sua ausência.

A experiência do pânico é terrível porque somos obrigados a experienciar a presença da  ausência total de sentido.

quinta-feira, 15 de março de 2012

A dor e a Anátema




Homenagem a Carlos pela sua melhor poesia



A dor e a Anátema

Limitado a algumas roupas sujas,
Escondo flores coloridas no bolso.
Hipocrisias, patifarias assolam-me.
Devo erigir a elas meu nojo?
Poderia, sem fé, lutar?

Alguns olhares no cume da pirâmide:
Sim, o panóptico se travestiu de Justica.
O mesmo fedor, os maus cânticos, consumismo e procrastinacao.

O tempo fede, a poesia esmorece
Fundem-se na mesma podridao.

No fundao tento encontrar os misterios imundos.
Sob a maquilagem discursiva, golpista e codificada.
O calor esquenta os ricos e derrete os pobres.
A política. Que triste é a politica, amalgamada em negócios.
Uma dor ofereceu-se nua!

Regurgitar esse nojo sobre o tapete.
Em quarentena a anátema do problema
Escondida, sequer revelada
Nenhum diploma concebido nem construído.
Todas as chuvas arrastando casas.
Em vão leem livros, se entregam à arte
e fingem um mundo que sabem inerte.

Assassinatos na terra, como julgá-los?
Assisti a sorte de muitos trabalhadores.
Alguns achei fortes, foram vencedores.
Trabalhos solertes, que ajudam a viver.
Razão diaria de sobreviver de assistencialismo.
Os mordazes filósofos da luz.
Os mordazes juízes da luz.

Atear fogo em miúdos, justamente assim.
Aos anos 2000 já falavam sustentabilidade.
Porém a morte é melhor assim.
Com ela se renova
A aos poucos a lembranca se arrima.

Fiquem ao longe, aviões, tanques, mar metálico do horror.
Uma dor ainda desafogada
Ilude as milícias, rompe o Estado.
Facam a completa reverência, paralisem O Capital
garanto que uma dor ofereceu-se nua.

Sua cor é mestica.
Suas mandalas se corporificam.
Seu nome está nas ruas.
É bonita. Mas é realmente uma dor.

Jogo-me ao chão da cidade mais rica do país ãs quatro da manhã
e vagarosamente represento em vão a dor segura de meu povo.
Do lado dos morros, nuvens clara-em-neve festejam-se.
Pequenos soldados proletários movem-se em patentes e marchas.
É bonita. Mas é uma dor. Dor proletária, sem remédio, com nojo e revoltada.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Entre contingências e coincidências




Produto de sociedades despedaçadas, o intelectual é sua testemunha porque interiorizou seu despedaçamento. É, portanto, um produto histórico. Nesse sentido, nenhuma sociedade pode se queixar de seus intelectuais sem acusar a si mesma, pois ela só tem os que faz. (Jean-Paul Sartre)

O engano milenar do teatro é que fez do palco um espaço exclusivo de atores e de atrizes. Por que nós, os não-atores, as não-atrizes, não teremos também o direito de representar? Objetará alguém que não dominamos o meio de expressão teatral. Protesto: dominamos, sim. Que fazemos nós, desde que nascemos, senão teatro, autêntico, válido, incoercível teatro? (Nelson Rodrigues)



Quero achar que podemos promover saltos qualitativos em nosso convívio com o mundo. Quero acreditar que posso me reconhecer e me reconsiderar perscrutando o meu passado. Há quem acredite que nosso passado não está em nossas costas, mas em nossa frente, diante de nossos olhos. Há quem acredite que o futuro não se projeta diante dos nossos olhos – mas permanece ocultamente ocluso em nossas costas.

Se hoje sou assim, sou mero fruto do acaso. Quando apareço hoje ao mundo, não expresso mais que a soma de todas as minhas contingências do passado. A vida humana se inicia com um acaso estatístico possibilitado pela impossibilidade da vida: o que vemos diante do espelho é uma dentre as milhões de possibilidades genéticas que herdamos de nossos pais – é assim que todas as outras se tornam impossíveis. Além disso, uma das milhões de possibilidades culturais que herdamos de nossa sociedade - que é uma em milhões.

Cada momento que me procuro nas linearidades da vida, automaticamente me perco. Cada momento em que tento fundamentar minhas escolhas em impulsos libidinais, vontade de poder ou luta de classes, percebo com mais intensidade que meus atos continuam sendo unicamente revestidos de pura fé. E assim me descubro um metafísico às avessas. E descubro que não sou mais ou menos humano que todos os outros mundanos que vagam errôneos e errantes. Explico: nenhuma das escolhas que fiz tomando como mote a racionalidade trouxeram-me os fins e objetivos prometidos. E assim triunfa o capitalismo – o império da razão é uma farsa.

Se decido traçar em palavras fugazes e frágeis a minha identidade, é porque quero fincar neste mundo algo que não sou. Porque tudo aquilo que somos automaticamente nos escapa. Explico: todos os discursos capazes de nos caracterizarem como um ser no mundo, cuja posição social e política está bem delineada, servem para nos anularem. A emancipação e a libertação não residem onde costumamos procurá-las. Entre existir a vida e existirmos nela, na brecha cósmica entre o ser e o nada, na lacuna identitária que se amplia entre um projeto existencial e outro – talvez estejamos ali mesmo, no não dito, naquilo que não pode ser falado, naquilo que não estará escrito ou registrado, no que se perde, naquilo que efetivamente é de maneira desinteressada.

Eu me encontro aqui: a soma de todas as coisas que fiz e que fizeram comigo, certas ou erradas, tristes ou banais, profanas ou sagradas, morais ou antiéticas, previsíveis ou utópicas – é esta disfunção matemática que me define. Fui percebendo, gradativamente, que todas as coisas mágicas que me aconteceram só ocorreram porque me desloquei do polo ativo. E assumi que não sou o protagonista de mim. Se o processo da existência exige que eu litigue com o mundo para que nele possa me definir, reclamando a chancela jurisdicional da religião ou da ciência, da política ou da filosofia, da indústria cultural ou da arte – então eu prefiro me retirar.

Eu me retiro porque para me ser preciso deixar de o ser. Porque o que eu sou não é tudo aquilo capaz de me definir: o que eu sou não possui nome, forma, cor, medida, peso, altura, graduação, carteira de trabalho. O que eu sou não pode ser mensurado. O que eu sou é incomensurável, porque se localiza entre o ser e o não-ser. Para ser não basta ser – é preciso procurar em outro lugar. Porque se a liberdade é um direito universal, todas as palavras que compõem esta frase são incapazes de delimitar a incomensurabilidade do ser. O ser só é quando continua sendo sem nomes – só há liberdade onde não sentimos necessidade de falar dela.

Enquanto tudo aquilo que fizer e escolher puder ser fundamentado num relato qualquer, científico ou religioso, teórico, filosófico, político, ético, é porque estarei optando por ser de maneira residual. Se quiser o retorno ao que me é próprio e peculiar, se quiser reaver minha natureza humana vaga e imprecisa, preciso me apoiar no infundamentável. Naquilo que for próximo de uma poesia realizada em missa. Naquilo que estiver perto de uma arte capaz de atualizar o real com a mística que lhe é inerente e que se perdeu. Porque eu nasci numa época descrente, desacreditada e choramingosa dos erros do passado mais próximo – mas não detenho os instrumentos para me conduzir tal qual se conduzem estes seres. Não perdi a crença, porque nunca a tive; não estou desacreditado, porque nunca dependi dos referendos e dos créditos que o mundo poderia me garantir; tampouco posso restar choramingoso, se não tenho as dores das promessas inacabadas e as lágrimas do sofrimento ulterior.

Vou continuar permanecendo assim, neste espaço, o local da descontinuidade. Só posso ser sendo algo muito maior do que o que sou. Só sou sendo para o outro. Só sou sendo pelo outro. Só me pertenço quando minha atitude diz respeito a sensibilidades que me são exteriores. Só amo quando retiro o protagonismo do ser para atender ao protagonismo da vida. Localizado aqui, entre contingências e coincidências, entre afagos e desertores, entre profetas e feiticeiros, talvez eu me reconheça em outros caminhos, naquilo que é feminino, naquilo que é místico, naquilo que é nosso, na insanidade, no presságio, na queda, no erro, na hipótese, no que não poderia ser e foi, no que era e deixou de ser para se transformar em um algo maior. A fé não comporta paradigmas ou estatísticas.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Carta aberta aos estudantes e acadêmicos do Brasil



Carta aberta aos estudantes e acadêmicos do Brasil


Todos nós já sonhamos um dia em chegar ao lugar onde agora nos encontramos. Mas o cheiro que vem dos pilares que sustentam os prédios de nossa Universidade não é universal. Alguns atores insensatos arrancaram da Universidade o que necessariamente nos é universal: o amor, a luta, a transformação, a contradição. Arrancaram de nossa comunidade aquilo que deveria caracterizar-lhe: o popular, o regional, o que é tipicamente francano, mineiro ou paulista, ou uma mescla engraçada e escancarada disso tudo. Arrancaram-nos a realidade do povo paulista e do povo brasileiro, trancafiando-nos com livros e teorias imbecis, que sozinhos, não dizem nada.

Sem o real, o que somos? Sem aquilo que podemos tocar; sem o calor do sol que nos queima a pele; sem o horrível odor da vinhaça atirada ao canavial para lembrarmos o drama dos cortadores de cana; sem relações verdadeiramente afetivas, criativas e inteligentes, que nos instigam a curiosidade pelo novo e mexem com a nossa estrutura; sem os beijos perpassados pelo sedutor sabor das poesias; sem as cores, dos insetos, das flores e das pinturas, todas obras de arte de atores cotidianos; sem a política, a discussão, a contestação, a luta, a dialética, as trocas, as negociações, e todas estas abstrações paupáveis – sem o aquilo que nos torna humanos, o que nos resta?

Certos atores insensatos permitiram a nossa entrada triunfal pelo palácio acadêmico da hipocrisia, sob uma condição: que nos travestíssemos de seres inanimados. Deveríamos nos aceitar burgueses, por tradição familiar; mas mais que isso, deveríamos manter-nos burgueses, muito embora esta palavra inspire, certas vezes, uma comodidade revoltante até para o próprio burguês. Poderíamos permanecer aqui, desde que não nos pintássemos de negro, de vermelho, de amarelo, de verde, de azul. Desde que estivéssemos bem vestidos, desde que tivéssemos conta poupança, Registro Geral e Título de Eleitor. Tendo passado e não agindo no presente, prometeram-nos que aqui encontraríamos o futuro.

Entretanto, o podre futuro que o sistema vigente insiste em nos meter guela-abaixo como o melhor de todos, esse futuro pintado com muito dinheiro, sucesso, técnica e viagens, todo esse futuro corrompido pelo fútil, pelo débil, pelo egoísta, esse futuro fétido que veste os mais pobres com a mortalha de mais miséria – esse futuro não é uma imposição, mas uma escolha. E não nos esqueçamos: quem faz uma escolha deve assumir as suas consequências.

Mas nós, nós que sentimos, nós que sentimos falta, nós que queremos mais, que estamos aprisionados pelas barreiras da burocracia e das convenções sociais, nós que fomos vítimas da moral, dos bons costumes, da polícia, da ditadura – nós somos loucos, porque o sistema nos fez sentir. E sendo loucos, não aceitamos a loucura aniquiladora do sistema.

Já é o tempo de resgatarmos a parcela de amor que o sistema nos arrancou. É chegada a hora do espasmo, da revolta. É chegada a chance de admitirmos a ausência de personalidade que adquirimos nestes anos todos. Estamos fedengosos, inertes, imobilizados, reprodutores, mecanicistas, frígidos e sem um pingo de criatividade. Somos atores ou ventríloquos? Somos a elite intelectual do país ou, em realidade, um bando de marionetes da verdadeira intelectualidade corruptora?

É a hora de esbarrarmos nas limitações cotidianas de nossas relações. É a hora do xingamento criativo, da crítica artística, da manobra política, da ação consciente, do livro queimado, do contato com a dor e o sofrimento. É a hora de subir no palanque, de subir na carteira, de afrontar as verdades inverossímeis de professores retrógrados. É a hora de conhecer o chão que se pisa, o povo que se convive, a luta que é lutada. É a hora para a gíria, para a favela, para o popular, para o resgate do que se perdeu e foi usurpado da história política e cultural do Brasil.

A história, com todas as suas vicissitudes, passa, e nós, acúmulo de forças contraprodutivas, vomitamos, embebedados, as nossas futilidades, as nossas vergonhas, as satisfações mercadologicamente carnais que chamamos de amores. A história corre... Mas há uma meia dúzia de sujeitos, que todos achavam serem loucos, falarem bobeiras, perpetrarem escatologias. Uma meia dúzia de sujeitos que insistia naquilo que era palpável, na crítica pontual, no trabalho de base, na solidariedade, na força de um partido político, na luta, na responsabilidade histórica. Essas pessoas, puts, esses caras falavam que eram um “ator social”, que possuíam uma tal de responsabilidade histórica, que deveriam lutar pela abertura dos arquivos da ditadura, pouco importando tivessem vivido, ou não, a dor da tortura. Diziam-se ser, na verdade, a própria idéia que seguiam e que lhes transpirava do corpo e da alma.

Tinha algo neles que parecia uma unidade, algo emergente e urgente, que lhes transbordava a pele, que lhes integrava o suor e o sangue. Não sei porque, gradativamente, fui sendo cativado por estes sujeitos. Tornei-me louco como eles. Passei a gritar, a arrancar a roupa, a negar com ou sem fundamento, a conhecer o diferente, a tocar o real, sentir o cheiro da vinhaça e descobrir que os bóias-frias me inspiravam uma dor e um sentimento que eu achava que não me pertenciam. E um dia, estranho e lindo, escolhi sentir essa dor. Foram os sujeitos: eles me levaram a experiências que inevitavelmente me transformaram.

É porque a filosofia não se realiza, é o real que filosofa. A realidade me cativou. Cativará a todos nós. Aproximemo-nos dos loucos. Estão escondidos em suas tavernas discutindo os rumos do país. Ninguém os ouve e, no entanto, o futuro é a sua chegada, a sua morada. Mudarão o país, mudarão a história, mudarão a Universidade, todos eles – porque decidiram mudar a si próprios. Aproveitemos essa estada nauseabunda durante o curso de graduação: caso encontremos algum louco, e ele nos enlouqueça, terá valido a pena.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010





Ainda que me acabassem as armas,
Haveria as flores e eu as utilizaria na batalha.

Mesmo que me tirassem os sentidos,
Não deixaria de saber por meio dos meus instintos.

Seria-lhes uma voz que ecoa
Ainda que me deixassem deserto,
Aprisionado em celas,
Escondido em exílios,
Mutilado em estacas,
Esquecido nos livros
E assassinado para a história.

Meus olhos continuarão abertos durante toda a guerra travada,
Mesmo que me torturem por alguns segundos, por minutos, horas, dias, vidas...

Continuaria indignado e incomodado
Ainda que me concedessem o eterno perdão pelos erros da humanidade.

Choraria
Ainda que não me restassem lágrimas.

Choraria
Ainda que me faltasse o amor,
Ainda que me faltasse a quem amar
E alguém por quem chorar.

Eu lutaria com as flores,
E assim golpearia as maldades,
Com tiros, com socos, com as bombas,
As ideológicas e as biológicas,
Com discursos, com a ciência,
Com meu trabalho e minha fé.

E, se fosse preciso, eu lutaria com as flores.

Eu sinto as dores dos torturados de todas as épocas,
Mas não cedo. Ainda que me dêem o choque.
Ainda que me façam inalar fumaça e tentem me afogar.
Mesmo que partam os meus ossos,
Mesmo que me destruam a capacidade de acreditar em tudo o que é humano,
Frágil, belo, sensível, saudável, construtivo, positivo.

Ainda que me cometessem o crime de arrancar a voz,
Eu seria um grito. Um grito de lágrimas, de flores e sentidos.

Eu indigno e incomodo
Porque não perdoei nenhum de vocês.

Entendam que a dialética permanecerá,
E mesmo que não queiramos, seremos a obra de seus resultados.

Vocês aceitarão a constância do eterno movimento transformador,
Ainda que não acreditem em nenhuma dessas palavras,
Mesmo que eu tenha que repeti-las de inúmeras formas distintas.

Revoltemo-nos.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Uma carta de amor




Uma carta de amor, com amor, para um amor...



Algumas pessoas se vão e, contrariando as regras do jogo humano, adquirem mais importância ainda. É que a distância é relativa. Algumas pessoas estão fisicamente distantes, mas mesmo assim compreendemos a evidência: é na distância que a importância de alguém se revela. Quanto mais longe, mais sensíveis ficamos, e assim sentimos qual peça essencial do nosso tabuleiro aquela pessoa conseguiu mexer. E algumas vezes, certas pessoas abalam o nosso edifício inteiro.

A vida, com sua luta e seu sofrimento, às vezes nos enrijece, nos enrijece demais, fazendo-nos esquecer que certas histórias não são apenas ficção literária. É que o real supera a ficção. Por isso que aqui e ali existem essas histórias sobre relações e relacionamentos humanos tão fortes que conseguiram se manter e se desenvolver nas piores adversidades. O humano, em conjunto, se reinventa. O nazista e a judia se amarão, tal qual o escravo e a senhora.

O tempo, assim como a distância, também não deixa de ser uma invenção humana. O que há de divino nessa idéia é que não pertencemos especificamente a algum lugar, a algum tempo, a alguma pessoa, ou a alguma idéia. Estamos volúveis, voláteis e então suscetíveis. Assim a liberdade se funda: na perda, na forma positiva de enxergarmos a perda. Porque nada se perde ou se acrescenta, mas apenas se transforma. Neste longo processo, fica a chance pra quem, rompendo com todas as naturais e ilógicas circunstâncias, decide amar. E ama, segue amando, o que quer que aconteça, onde quer que esteja, da forma como estiver.

Ser humano é ser diferente. Diferente porque eles conseguem amar algo que está contido em sua memória ou sua idéia. O humano tem a capacidade de amar sem estar em contato com o objeto amado. É que o contato também é relativo, e vez ou outra acabamos tocando aquelas pessoas mais especiais, na ânsia de que também nos toquem com a sua lembrança. Eu tenho a certeza de que o ser humano, quando se lembra de outro alguém com amor, estabelece uma forma de contato que nem mesmo a sua espécie capta e percebe. Ambos se lembram e se degustam na lembrança. São comunicações sem mediações, sem pontes pra que consigamos entendê-las. Porque o importante é nos comunicarmos, sempre.

Veio você, e com uma naturalidade absurda, brincou com a minha estrutura. Me reordenou e me reinventou. Mexeu em duas peças, e tive que repensar como reordenar meu tabuleiro inteiro. Você tinha apenas algumas horas e um pequeno conjunto de palavras, e mesmo assim obteve o melhor aproveitamento nesta mágica do encanto. Do encanto dos encontros e desencontros. E a prova disso, de que o que hoje eu sou contém uma parte de você; que a sua forma de existir ajudou a preencher com conteúdo o pote da minha essência; que tudo é real e vivo hoje como foi ontem e como será amanhã; a prova disso é que hoje eu sou assim...

segunda-feira, 19 de abril de 2010

A última emboscada contra Che Guevara



A última emboscada contra Che Guevara


Che Guevara. O homem-revolução.
Nasceu, viveu e morreu
Pela luta do povo cubano
E de todos aqueles que possuíam fé na transformação.

Nos seus olhos estava o brilho da luta.
Em suas lágrimas estavam centelhas de esperança.
No seu sangue e na sua dor, as pequenas vitórias cotidianas.

Seria traído e sabia disso.
Estava preparado para padecer e se tornar o símbolo da cotinuidade.
Não haveria uma vitória final. Apenas a luta constante.
Por algum sentimento de acaso, desprovido de racionalidade e lógica,
Sentimos que assim seria seu depoimento final
Se pudesse descrever as sensações que sentia
Em seus momentos finais...

Depois de tantos anos encarando a realidade com perseverança,
Com toda a perseverança de José Martí e dos camponeses sofredores,
De meus irmãos Fidel e Raúl,
Na saudade e na falta de todos os meus afetos,
É difícil encarar esta transição momentânea.

Não vislumbro meu padecimento humano como o fim.
Meus olhos fecham-se apenas para que as portas do futuro continuem sendo abertas.
Vivi acreditando que minha existência poderia adquirir um significado maior
Um significado cuja amplitude poderia tocar
Os sentimentos de todos os seres humanos.
E foi assim em cada instante de minha vida,
Em cada gesto, cada escolha e cada atitude.
Tornei-me parte de uma união conjunta de nossas emoções.

Amemos
Porque o amor é a maior característica dos revolucionários.

Amemos mais a cada dia,
Amemos cada dia com menos preconceito
E depositemos em nossas atitudes diárias estes sonhos de amor.

Amem também, meus companheiros e companheiras.
A felicidade coletiva nasce de maneira conjunta
Nas derrotas e nas singelas vitórias.

Senti com toda a sensibilidade da qual fui capaz
E desejo que meu legado seja o de uma bela flor
Cuja beleza inspire a delicadez para o entendimento afetivo dos povos
E cuja força inspire a constante luta transformadora
Que todos nós pudemos viabilizar.

Amemos e celebremos
Como os irmãos que dividem o pão à mesa
Como os irmãos que dividem a fome durante a guerra.

Gostaria, com toda a sinceridade,
De continuar dividindo com todos vocês
Aquelas experiências mais simples de nossas existências
Com fé e esperança.

Mas sei que tenho apenas de cumprir uma parcela da totalidade revolucionária.
Deixo o espaço para os grandes revolucionários que comporão a luta coletiva.

Cubanos, argentinos, bolivianos, brasileiros,
Camponeses, jovens, oprimidos,
Não desistamos deste contínuo processo que nos restou
Como a única alternativa para atingirmos o verdadeiro sentido da humanidade.

Que o povo latino-americano jamais desista da luta
E que minha morte sirva-lhes de inspiração.

Obrigado pela oportunidade,
Morro sorrindo e sonhando com o dia que não pude viver.
Graças a vocês descobri a minha identidade.
Graças a vocês me descobri inserido no significado maior da vontade humana,
Neste processo do qual tive a honra de participar ao seu lado.

quarta-feira, 3 de março de 2010

A pausa também faz parte do cotidiano




A pausa também faz parte do cotidiano


Estou estreitando uma relação contigo neste exato instante. Não me ache deselegante pelo simples fato de estar criando este espaço de aproximação unicamente por meio das palavras, e da nossa linguagem, tantas vezes incompreensível e incompreendida. Se assim o faço é porque me encontrei nas circunstâncias que sobraram no mundo – não pude escolhê-las, apenas me descobrir enquanto vivia inserido nelas. Não escolho minhas circunstâncias, mas me descubro ao agir diante delas... Circunstâncias...

Em algum momento, provavelmente neste instante-já, neste pequeno limiar entre meus dedos no teclado e o zinzinar dos seus olhos nas letras, palavras, orações, significações e incursões deste discurso – alguém morre. Mas não pense que isso é uma fatalidade. Na regra natural da existência, as energias se transformam, e neste transformar, agrupam-se de maneira diferente. Seria maçante demais existir apenas nesta forma humanamente encarnada.

É interessante que experimentemos o outro. É natural que definhemos, que nossos órgãos e nossa mente demonstrem-se irremediavelmente exaustos e decepcionados perante as perspectivas adquiridas em vida. Morrer não é o fim, nem por alguns instantes. O mais difícil, nesta conjuntura, não é o ato, ou a omissão, ou a escolha de morrer – mas, ao contrário, aceitar a morte alheia, a morte do outro, daquele que nos é afeto, de nossos amados, de nossos ídolos.

E, no entanto, choremos ou rimos, alguém morreu na frente de minha casa e da sua, ali no asfalto molhado da chuva, quente do sol e sujo da humanidade – ali acabou de morrer um motoqueiro, que era traficante, político, empresário, um pai de família, branco, amarelo, preto, vermelho, caucasiano, oriental, afrodescendente ou apinayé. Morreu, é uma fatalidade cruel, cruelíssima, não para ele, mas pela sua primeira namorada, pelo primeiro filho, e talvez pelo primeiro neto.

Pensar no cotidiano... a morte é tão cotidiana, pensar nela é também tão imensamente cotidiano. Pensar a morte é cotidiano pela constância, pelo repetir-se eternamente no tempo, pelo desejo de um porvir repetido, próximo do idêntico, um devir reflexo do jazer. Estar preso no ciclo do “pensar a morte enquanto se vive” é uma dádiva, direito, façanha, burrice ou esquisitice exclusivamente humana. Nós somos os únicos a despender tempo pensando a morte.

Agora, morreu alguém com um tiro no peito, com cólera, de fome e de sede – o mais dos absurdos – e também de suicídio. As minhas palavras continuam a ser concebidas por movimentos esquisitos dos meus dedos, nossa relação é muito mais íntima, mas nem por isso o sol deixou de secar as gotas da chuva e das lágrimas...

Nesta constância transformadoramente cíclica, teríamos a chance, em alguns momentos crônicos de nosso cotidiano-crônica, de experimentar a pausa do tempo? Digo, naquele arfar de quase-vida-quase-morte, naquela inspiração, inspirada ou expirada, nas epifanias de acaso – será que em algum momento o tempo se concentra num espaço determinado e se barra na sua continuação?

Escute... é o grito de alguém que está sendo torturado. Essa pessoa está morta? Estávamos concebendo uma crônica sobre a presença cotidiana da morte e de repente... Escutou? Nossa, estou todo arrepiado... Os pêlos do corpo se levantam, e isso me parece a catarse de energias angustiantes e asfixiantes, descarregadas em meu corpo em forma de hormônios, pela tão singela captação sonora deste... Ai! O que estarão fazendo com ela? Pois é mesmo um grito de mulher...

Essa pessoa está viva? Pergunto porque, talvez por algumas evidências, morta ela não está. Quando morremos não nos mexemos... o grito também é uma movimentação modificadora, e se ela se movimenta nestes contornos, morta não está... Mas estaria viva, esta mulher? A tortura não mata, mas ao mesmo tempo não deixa viver.

Estaria grávida? Está apavorada, talvez machucada... Arranharam-na, despiram-na, chutaram-na. Depois, estupraram-na. Ejacularam em seus olhos, que são azuis, que já foram objeto de tantos elogios, que já se enamoraram e também se esqueceram e também sofreram a decepção dos que se permitem amar... Azuis, lindos, e eu estou dizendo a verdade, mesmo que se exija esse sentimento de nojo e ojeriza para aceitar essa verdade: ejacularam – e eram seis – em seus olhos azuis...

Agora, a tortura é sim cotidiana.

Um político disse que não podemos deixar de pensar a corrupção sob dois aspectos:

a) primeiro aspecto: a corrupção imediata e direta, isto é, aquele sujeito investido do trato da coisa pública colocar dinheiro nas meias e dizer que é pra comprar panetone;

b) segundo aspecto: a corrupção nas prioridades, ou seja, aquele sujeito investido do trato da coisa pública (que só pôde subir ali onde está porque muitas pessoas, em sua maioria pobres, oprimidas e necessitadas, fizeram um aceno permitindo que subisse) que, em vez de cuidar de alimentação, saúde, trabalho e educação, faz viaduto, faz estátua, faz palácio e dá nome de relevo pro palácio...

Seguraram seus cabelos, ali na proximidade da nuca, e puxaram com muita força em direção ao chão... Sentada e algemada com os braços por trás das costas era um animalzinho indefeso. Sujo de sangue. Seu próprio sangue, e sangue de dois ou três cabos. Aqueles cabos eram todos casados com mulheres, lindas, feias, burguesas e cosméticas, solícitas ou vagabundas. Casados, afetivos, mas ali em seu trabalho eles eram um pouco mais rústicos, secos, frios e frígidos, maldosos, impiedosos e desgraçados. Desagraciados. A graça, ali naquele momento, jamais lhes recairia...

Ela estava suja de excremento também. Fezes, urina, cuspe. Os cabos podem ser alemães, estadunidenses ou brasileiros. Tanto faz, todos são filhos da puta e torturadores. Não digo que eles mereçam a morte, porque a morte é um presente, mas que o melhor seria mesmo aniquila-los a todos, pra que evitemos de coexistir com a maléfica presença da tortura e de torturadores.

Encostaram-lhe o cano do revólver na nuca, era gélido, metálico, escuro, mas tudo estava escuro, e o pavor era muito mais aterrorizante no escuro. Apenas houvera claridade no momento do estupro – tudo o que foi feito antes e depois foi realizado na escuridão apavorante que a inexistência da visão produz.

Pense que ela estava sendo torturada por ser comunista, por ter idéias, ideais e ideologias que visam modificar drasticamente o sistema-mundo no qual vivemos. Pense que ela estava sendo torturada por ser também uma torturadora nazista, na época em que Hitler centralizou o ódio do mundo, e esta tortura era o seu castigo, a sua sanção, a sua pena.

Pense que ela estava sendo torturada apenas na ficção das minhas palavras. Pense que ela estava sendo torturada como forma de retratar a tortura sofrida por você, mulher. Pense que ela estava sendo torturada para representar o grito de todos os torturados gritando concomitantemente juntos, unidos por um ideal de revolta, na repudia e no amargo sentimento de complacência para produzir uma luta lutada com paz, com o exemplo que a paz produz, e não com mais ódio.

Pense que ela estava sendo torturada apenas para que lembremos, numa crônica, que a tortura é cotidiana. Pense que Maria Isabela viveu cinco mil anos de existência em apenas cinco horas de tortura. Que hoje vive, mas que por cinco horas não viveu. Nem morreu.

A história de Maria Isabela parou o tempo, o nosso e o dela.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Há algo de universal em todos nós



Talvez o meu maior objetivo agora, neste trabalho, seja a produção de uma linha de raciocínio que não seja alienada. Por linha de raciocínio alienada quero referir-me ao conjunto de saberes acadêmicos não construído de forma a integrar os saberes humanos numa perspectiva transdisciplinar. O meu maior desejo é comprovar que na atual conjuntura brasileira não há como se falar e se estudar o direito sem especularmos sobre a filosofia e a política. E, por óbvio, a filosofia política, que neste estudo ganha especial relevo.

Fico imaginando quais as sensações tomavam o corpo dos filósofos durante sua produção intelectual, durante o período no qual as impressões que tinham do mundo eram codificadas em linguagem e convertidas em pensamentos, conceitos, métodos de análise. Será que o sucesso desse procedimento reside justamente no fato de conseguirem transmitir sua sensibilidade por meio das palavras? Se isso é verdade, nossa língua é a ponte que nos permite tocar a alteridade, sentindo nosso mundo em sua unicidade difusa.

Há algo de universal em todos nós. E mesmo que nos pensemos indivíduos, alheios ao todo, partes fechadas de uma engrenagem vital, seres cuja identidade os torna únicos, os elementos que contribuíram na constituição de nosso Eu são os mesmos elementos que compõem o mundo, seja a nível orgânico e material, seja a nível metafísico e subjetivo.

A humanidade está correndo pelo nosso corpo. As energias de todos os seres vivos de nosso planeta se entrelaçam para que se transformem, em uma regra que possui algum tipo de lógica divina, sobre a qual apenas nos resta especular. E viver.

Minha vivência tem sido procurar uma identidade em todos nós, a motivação que faz o ser humano construir seu mundo e se permitir definir através de seus atos. A arte e a ciência apenas podem dar certo na medida que nos induzirem a sentir sensações. Não por uma escolha deliberada de nossa parte, os interlocutores da produção artístico-científica, mas pela natural leveza que sentimos ao entender o pensamento de alguém que entende o sistema no qual estamos imersos.

Esse sentimento, que viaja como um esguicho de prazer pela nossa espinha dorsal; o arrepio dos pêlos do corpo e a sensação de se libertar de alguma forma de opressão que não se havia identificado; essa nesga de hormônio liberada em nosso corpo ao ser respeitado o que o cérebro, por seus próprios motivos, ordena e determina – provocar uma sensação é o que faz a arte e a ciência darem certo.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Por que sorrir?




Sorrir, sorrir por toda dor que não foi sofrida em vão, sorrir pelo calor feliz do sol e pelo molhado sábio das lágrimas. Sorrir pelo que passou e que tem toda a chance de retornar, sorrir pelo necessário fim, que faz com que a vida seja tornada maravilhosa a cada pequeno detalhe. Sorrir pela simplicidade de um sorriso sincero, sorrir pelo símbolo maior do sentimento maior humano, sorrir com a felicidade e o brilho dos olhos de uma criança.

Sorrir por todo o trabalho realizado, sorrir para não padecermos diante das certezas tristes, sorrir, não para que esqueçamos todo o sofrimento, todas as bombas, todas as guerras e todo o sangue, mas sorrir para que tenhamos a capacidade de ser um futuro melhor hoje. Sorrir por tudo aquilo que já se foi, sorrir, porque a infinitude não possui a graça do efêmero.

Sorrir por toda a intimidade compartilhada com aqueles que amamos, sorrir pela incansável insistência das flores, que nascem no asfalto, no deserto, diante do absurdo, da morte desnecessária e diante de toda a dor que o ser humano causa em si mesmo e naquilo que é natural.

Sorrir porque as lágrimas se acabaram todas, despejadas diante de uma tristeza tão infinita que não pode mais ser enfrentada senão com a delicadeza, a sensibilidade e a compreensão. Sorrir por aquilo que valeu a pena, sorrir pelo que pode valer a pena, sorrir inclusive para que tudo o que não vale a pena possa adquirir um pequeno encanto.

Sorrir pela força, sorrir pela energia, sorrir pela superação, sorrir pela conquista de tudo aquilo o que não pode ser dominado ou controlado, sorrir pelo que pode ser conquistado através do amor, da beleza e do encanto, sorrir pelo que é conquistável por meio da permissão.

Sorrir para que possamos nos permitir sorrir.

Sorrir pelas pessoas que caminham sozinhas na rua, sozinhas em seus pensamentos conjuntos, sorrir pelas aves que voam e nos lembram que somos humanos, e portanto impotentes.

Sorrir pela liberdade que é tanta que chega a sufocar, sorrir pela angústia e por todas as terríveis sensações inexplicáveis, sorrir pelo pânico e pelo desespero, sorrir pelo aprendizado que os maus momentos nos trazem. Sorrir pelo tempo, sorrir pela memória e pelas lembranças, sorrir pelos nossos avós, os mortos e os vivos.

Sorrir, porque chorar é muito pouco.

Sorrir, não por apelo, por necessidade ou pela terrível e sistemática obrigação de sermos felizes, mas sorrir por aquilo que machuca, sorrir por aquilo que nos lembra da nossa frágil condição, sorrir pelo amor poder ser expressado através do toque de dois lábios, expressado pelo canto de dois pássaros, expressado nos passos que não são solitários.

Sorrir pelo momento mais nosso que é a solidão, sorrir pelo amor próprio e para o bem alheio, sorrir como uma oração necessariamente diária, sorrir pelo agradecimento, não pela piedade ou pela culpa, mas sorrir pela coragem. Admitir que o sorriso é uma postura política diante das mazelas.

Sorrir de forma consciente, sorrir e estender as mãos, sorrir e ceder a roupa do corpo, sorrir e permitir que alguém não sorria, sorrir depois de literalmente chorar nos ombros de um amigo. Sorrir porque nasceu um filho, sorrir para demonstrarmos aos nossos pais que seus esforços valeram e valem a pena.

Sorrir, porque se não sorrirmos, as luzes se apagarão. Sorrir, porque se não sorrirmos, pode ser que deixemos de ser. Sorrir pelo ódio, que foi incapaz de deter a sensação pura que assistir ao vôo de uma borboleta causa. Sorrir pela duração imensurável de um momento inesquecível, sorrir pela momentaneidade da vida e da existência.

Sorrir, porque existir também é pouco.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Athanis, um rapaz helênico

Um belo dia, quer dizer, num dia chuvoso e frio, daqueles que dá muita carência e muita vontade de fazer sexo, meu pai e minha mãe tiveram a brilhante idéia de realizar concretamente o prazer sem contudo se utilizarem de instrumentos hábeis a inviabilizar o contato entre um espermatozóide e um óvulo. Ou seja, deram uma sem usar camisinha nem anticoncepcionalzinho...

A consequência foi agradavelmente desagradável. Agradavelmente, porque teve como meio o inefável gozo da carne. Desagradável porque teve como fim:

Como vamos chamar o menino? Vamos dar um nome diferente pra ele, não acha?

Adonis, Nathan... e se a gente misturar? Athanis, que lindo!

Bem, desde então, cartórios, burocracias, tosses e 20 anos de desgosto se passaram.

Nesse meio tempo, as pessoas têm me chamado de tudo, menos de Athanis. Denis, Atênis, Atenas, Antenas, Antunes, Até Ânus, Adanis, Tens, Tênis, Apênis, Apêndice, e uma série de outras alcunhas cuja lembrança me faz rir, mas cuja audição me fez ficar exacerbadamente desgostoso com a vida.

Entenda-se: puto com essa merda de idéia dos meus pais.

Mas tem lá suas vantagens chamar-se Athanis. Não preciso, por exemplo, escrever athanisrodrigues_88_sp pra fazer um e-mail.

É sempre o bom, velho e singelo athanis@...

E é justamente fazendo uma brincadeira com meu nome que meu amigo J.J. Jey fez uma caracterização minha com um rigor humorístico muito elevado, fino e denso. Deixou um depo no orkut bem legal e engraçado:

"Meu amigo de nome helênico...

Obrigado. Você trouxe-me filosofia. Gênio irriquieto, causador eventual, poéta integral. Herdeiro dos renascentista, questiona; alinhado aos pós-modernos, nega; artista de alma, ama. Amo eu sua companhia. Carrega contigo a marca daqueles que não procuram respostas. Questão ontológica, respostas existem em razão de perguntas, essas sim, por você foram domadas. Pávil provocador, é gatilho intelectual que a tantos falta, que tantas vezes me falta (o gatilho e sua presença). Tudo teatro. Conhece o absurdo, dele tira proveito, goza e se diverte. Autêncio, tantas vezes divide comigo a angústia. Inevitável, meu caro. Como eu, ela também o ama. Política e filosofia, você disse. Amizade e carinho eu lhe devolvo. Convivemos juntos no surrealismo, no romantismo e até ao parnasianismo uma vez nos dirigimos. Mas o bucólico não é seu. Mais para o movimento, para o ritmo e para a frenesi. Bem perto da Arte. Pois que seja. O conjunto da obra é que me encanta. Obrigado."

Brincadeiras à parte, fica esse post dedicado aos meus pais, ao jey, e a tantas outras pessoas que me ajudam na construção do que eu acredito - luto e escolho - ser a minha identidade.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Você se expressa em forma de eu, viu no que deu?






Talvez eu não queira vencer na vida. Talvez eu não deseje ter dentes suficientemente brancos Colgate®. Vitória e brancura não deixam de ser juízos de valor.

E se eu não quiser amar uma pessoa pra sempre. E se eu decidir, por escolha – não por fuga, ou por medo, ou pela fuga que vem do medo – não acreditar no amor. E se minhas condições não forem perguntas, mas imposições afirmativas. E se esta frase, como todas as anteriores, não precisarem de ponto de interrogação.

Será que todas as obras de arte do mundo, distintas todas que sejam, não deixam todas de serem diários? É possível dissociar a arte de seu próprio artista? Um escritor, ou um pintor, ou até um músico, em algum momento, único que seja, não fará uma carta-colorida-e-musicada sobre suas mágoas incuráveis, suas bestas esperanças, suas bestas escondidas? E então, a emoção que a arte causa, em quem a cria, em quem a absorve, ponte de ligação, pleonasmo redundante, não é uma imitação do idêntico?

Pois eu duvido que não sintamos a mesma sensação. Sexo, Maconha, Samba com Feijoada, Picasso, Fernando Pessoa, Açaí, Massagem nos Pés, Futebolzinho de Noite encantam tantas pessoas porque causam inúmeras, inigualáveis-incontáveisinfinitas sensações ou simplesmente porque ativam justamente a mesma descarga hormonal em todos nós, os caras que acharam que eram o rei de tudo, teorema da complexidade, razão divina, construção, paz-amor-e-bala, metáfora, conhecimento, rei do próprio umbigo de olho no do outro.

Vai vendo hein cara, os dinossauros se foderam.

Mano, como eu vou dissociar o que eu escrevo do que eu sou? Eu tenho certeza que o Machado de Assis já comeu uma Capitu, que claaaaro, não se chamava Capitu, olhos-de-ressaca-sugestão, loira ou assim ou assado ou segredo, nem vou te contá-ar! É óbvio que o Johnn Lennon andou usando algumas drogas pesadas, não precisa o jornal doninho-da-verdade-que-ele-mesmo-criou vir me falar disso. Eu escuto o som, eu vivo o som, eu conheço pessoas que curtem o som, eu analiso essas pessoas, eu me analiso em convívio com elas, eu sei que drogas elas usam, eu sei quais os efeitos instantâneos e os colaterais, já escutei depoimentos, além de ter prazer na música, ter um ouvido atencioso, uma preferência refinada sem ser preconceituosa, uma noção vai... Eu sei o que tá rolando com a arte dos outros. E assim, com eles.

Será mesmo que o escritor que não consegue transcender seus paradigmas cai no sempre-mesmo, o erro-retornado? Será mesmo que eu, na minha condição de agente por trás da linguagem, que neste exato momento a instrumentaliza, mas ao mesmo tempo é por ela instrumentalizado, consigo construir uma arte dissociada do meu eu sem cair no controle total da linguagem que me instrumentaliza e me controla, e acha que me faz escrever o que ela quer, o que ela quer, ela quer, ela quer, quer, quer, quer?
Que puta dilema moral, mano!

O mais legal é incomodar quem fala certinho juntando gírias renegadas com palavras que causam impacto técnico, científico ou significativo.

Eu falar do jeito que eu quero não é ser ignorante, dá licença?

Eu também conheço o Ego-Superego-Id, eu sei fazer análise técnica em gráficos da Bolsa pra descobrir tendências, sim, eu cozinho muito bem, já li Dostoievski e Weber, já fui em umas quarenta e nove exposições no Masp, já peguei uma moça que era modelo e me entediei, sei dançar forró, sei o que significa Common Law, guardo dinheiro na poupança, e só porque eu falo “véio, cê ta tirano-né?” você é melhor que eu?

Vai se foder. Não sabe qual é a metade da caminhada.

Eu gosto de estar aqui quando comigo. Será mesmo que a arte é uma ponte de ligação de si para consigo mesmo, será a arte o único ente suficientemente e factivelmente democrático, posto que gera prazer sem cobrar, único jogo social humanóide que não tem como causa e conseqüência estabelecer-se uma relação de poder, onde um exerça domínio e outro padeça dormino?

DorminDooooooooooooooo! Eeeeeeeeeeerrrrrrrrrr...

Na terceira-série (digressão: porra, quase escrevi terçeira, irmão! Acho que é por causa de terça-feira, terceira, puta odeio que o Word tira o cedilha “errado” QUE EU QUERO COLOCAR!, terçeira), esse seria um comentário que causaria um sofrimento mórbido, as crianças, por ausência de personalidade já concretizada, cedem muito perante uma moral estabelecida pela maioria, ou mais admirados (admirados pela qualidade-defeito que você desejar, essa é a pira dos grupos sociais infantis) da turma.

Bom, e daí? Foda-se.

É que é engraçado, falam que a infância é a melhor idade, mas é mentira, é uma bosta, eu não transei quando era criança, eu não usei entorpecentes, eu não andei de montanha-russa, eu não senti a adrenalida de trocar socos com alguém enormemente maior, não senti a decepção de um amor que gera o maior tipo de calo que pode existir, calo na fé. Não conheci lugares lindos, pessoas maravilhosas e nem ficava maravilhado com expressões artísticas e avanços científicos. Não tinha dinheiro e quando tinha, não sabia controlá-lo.

Meu cérebro cria quando eu escuto um som do Mozart, do Chico Buarque. Não é que ele crie por inspiração, crie imitação de “Construção”. Ele cria porque inova, porque cada acorde me gera um arrepio-diferente, sensação-que-não-tem-nome, cutuco-delicado, carinho-arranhado. E sim, aqui houve criação! A arte cria até quando é absorvida. Por isso foi e sempre continuará sendo a maior forma de sedução de um ser humano para com outro, para com outros, de um ser humano para com todos, de todos os seres humanos para com um, mas principalmente, de um ser humano para consigo.

Nossa, que gênio hein, dá uma esporrada no monitor agora. Bate uma punheta com sete fotos 3x4 suas, espalhadas pela escrivaninha.

Que monólogo masturbativo.

E aí, o escritor tem controle no texto ou ele é autônomo?

O texto é inicialmente O escritor e depois ganha capacidade-significativa própria?

Própria ou dada por quem o lê?

E será que um texto tem capacidade significativa sem ninguém tê-lo lido?!

Puts, claro, os regimes totalitários, cara!

Aeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee!

...

Game Over.

- Pedrinho-amor, você tá bem?
- Só escrevendo um pouco, Raquel...
- Falando sozinho?
- Com o monitor.
- Ah...
- Só lexotan...
- Tô vendo.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

A paz que eu não quero seguir admitindo



(Ao som de “Minha Alma” na voz de Maria Rita)

Pode me dizer o que você quiser, cara. Pode me acusar do que você quiser, me apontar com o dedo na cara o defeito que mais te incomodar. Pode me arrebentar de porrada, pode me jogar pra fora de casa. Pode me encher de pipoco, me encher de macumba, de difamação, me caluniar, me enrabar, me cortar e perfurar inteiro até morrer de tanto sangrar.

Pode maldizer meu pai minha mãe minha família inteira, pode me deixar esquecido, me ignorar. Pode tirar tudo que eu tenho, ou tudo aquilo que um dia eu achei que possuía sem nunca ter me dado conta de que na vida a gente não tem nada, nem a nós mesmos quando a água bate na bunda. Só caos e descontrole do caos.

Pode cortar meu pau fora, pode cortar minhas duas mãos e meus dois pés, pode deformar minha cara com ácido sulfúrico. Pode me deixar cego, me deixar paralítico, sem uma orelha. Pode me arrancar o nariz, deixando só as cavidades negras apontando sempre em frente, sempre uma boa caverna para o bom inseto que entrar ali dentro e depositar quantos forem os ovos necessários pra que nasçam larvas suficientemente famintas e de número bastante pra comerem meu cérebro inteiro.

Pode me amputar a alma, que eu já não preciso mais dela.

Pode me dar uma bengala, me chamar de velho, apagar minha memória. Pode discursar com ar de cientista e negar tudo aquilo em que um dia eu acreditei. Pode queimar todas minhas roupas, minhas fotografias, meus documentos, minha casa, minha delicadeza, minha sensibilidade. Pode queimar tudo que estiver de alguma forma relacionado a mim. Pode, inclusive, queimar todas as pessoas que a mim se ligam ou são relacionadas, que no fundo no fundo, eu já não preciso mais delas.

Não que um dia eu tenha precisado e seja egoísta o suficiente pra soltar um comentário desses. fNa verdade, não preciso mais como nunca precisei, como constantemente deixei de precisar, como vim exercitando repetidamente a desnecessidade de me importar com elas.

Pode piorar, pode me tirar a água do banho, a comida da boca e os pêlos do corpo. Pode arrancar meus ideais, meus sonhos, minhas expectativas, minhas tentativas, meus erros e meus acertos, e tudo aquilo que talvez um dia tenha me feito bem. Só fé que não vai poder tirar, porque afinal, fé eu nunca tive.

Pode me deixar seco e esturricado ali no sol prum urubu vir e me comer naquele momento mais caótico da nossa vida, o momento da quase-existência, o momento que a gente está a um pé de ser e a um pé de nada, a um pé de todas as coisas coloridas e a um pé de tudo aquilo que não tem nome, porque não é; aquela linha tênue e nauseabunda entre um piscar de vida e um arregalar de morte.

Aproveita que vai me tirar tudo e leva junto esse sangue maldito que grudou nas minhas mãos. Eu já to fodido mesmo. Agora eu entendi porque dizem que o primeiro banho depois que você mata alguém parece o primeiro banho da sua vida. Eu acho que é a adrenalina, cara. Te endurece inteiro, cê fica parecendo uma borracha que inchou de algum líquido maldoso, depois ficou exposta tanto tempo ao calor e à secura que encolheu, encolheu, e começou a rachar todinha, todinha.

Sai, sangue de merda! Tsc... Esse banho é uma delícia, na cadeia não vai ter mais mamata de aguinha quente. Nossa, aquele babaca do padeiro ainda disse que eu precisava de paz no meu coração. Que paz é essa que eu preciso ter no meu coração, seu velho infeliz de bosta! Que tipo de paz é essa que me mandaram cultivar e conservar, como se eu fosse um capacho do sistema, uma mula que carrega um letreiro nas costas.

Eu não quero essa sua paz coletivizada, essa sua paz senso-comum, paz cheia de medo e de obediência, paz que virou paz porque foi incapaz de virar algo melhor. A minha paz é a tranqüilidade da minha alma em saber que o Rogério não existe mais. Essa sua paz que não é a minha paz eu não vou continuar seguindo, não vou compactuar com esse exercício arbitrário de poder discursivo, paz que é liberdade, consumo, concorrência, dinheiro, arma, guerra e podridão.

A minha paz é mais simples, a minha paz é luz num mundo negro de falseios. Eu não quero sua paz, eu quero a minha paz. E agora eu a tenho. Seu mundo, padeiro, seu mundo sustenta uma paz muito mais sangrenta que a minha. Seu mundo, seu sistema, seu complexo social, sua cultura, sua moral, suas leis e seu direito, seus achismos, sua economia, sua patifaria, sua psicologia frustrada, sua estética de celulites e coca-cola, sua filosofia de acaso, sua pinga no boteco, seu torresmo cheio de óleo, e mais todo o monte de jogos e truques sem os quais você e o resto não conseguem viver, não me trazem paz porra nenhuma!

É foda estudar 5 anos de ciência política, teoria do estado, constituição, genealogia da moral, história mundial, direitos humanos, conviver com aquele monte de molecada com síndrome de pequeno poder, depois enfrentar anos e mais reanos de cursinho para concursos, que ridículo, esses eu perdi a conta, trocar de método, reprovar na parte teste, reprovar depois na parte aberta, depois na entrevista, putaquepariu-passei!, depois de prestar 7 vezes vou finalmente abocanhar essa vaga de juiz.

É foda encarar o mundo de frente, tentar fazer as coisas melhorarem, lutar pra si, pelos outros e até por meia dúzia de zé-mané que eu discutiria se realmente mereceram a minha luta. É foda SENTENCIAR, padeiro de merda. Cada sentença é duas noites sem dormir, trinta segundos a menos de vida, uma pancada mais dolorida no coração, uma gota a mais de stress e um tendão a mais inflamando, uma infelicidade a mais, uma dúvida a mais, uma perda de identidade a mais.

Tinha dia que eu dava tanta sentença que chegava em casa e ficava me olhando no espelho, pasmado, chocado, constipado, prostrado, pensando como eu podia tomar decisões acerca do mundo que me rodeava se, em tanto tempo de vida, nem mesmo tinha conseguido me conhecer enquanto eu-mesmo. Você não sabe o que é ter lepra no espírito. Não sabe o que é ver os sentimentos e as expectativas definharem gradativamente, dia após dia, de pouquinho em pouquinho, e a única arma sobrando pra usar contra essa desgraça ser seu próprio sorriso amarelado e sem graça aparecer na frente do espelho.

É foda estudar a lei, achar que entende a lei, conseguir interpretá-la e aplicá-la de um jeito mais ameno, mais paciente, calmo, justo, sem, é claro, perda de combatividade. Eu já fui você um dia, eu já acreditei no sistema, no meu ofício, num direito como instrumento-de-transformação-social, nossa!, viva ao Gramsci! Mas agora na minha cabeça, a paz que vem desse sistema não é mais uma paz que quero conservar pra tentar ser feliz, essa paz eu não vou seguir admitindo.

Coitado do Gramsci, quem tava certo era o Falcão do Rappa.

Sabe o que aconteceu, padeiro? Eu tive a minha chance, que todo homem, eu tenho certeza, existindo deus ou não, ganha um dia. Eu conheci uma professora de literatura que se chamava Beatriz, que se tornou um dos seres humanos mais interessantes que já tocaram o meu conhecimento, a mulher mais bela com a qual cheguei a me deitar, a mãe mais inovadora que eu poderia ter escolhido.

E eu, Seu Padeiro, que era até então um cara desacreditado, quase se rendendo perante esse seu mundo que um dia eu cheguei a acreditar e inclusive um mundo pelo qual eu lutei e lutei até me cansar, recebi o encanto da minha vida. Nasceu a Clarice. Criei a Clarice até ela fazer 15 anos, exatamente, porque no dia seguinte do seu aniversário – tão bonito, que nos deu tanto trampo conseguir montar e pagar, mas que valeu cada moedinha e cada instante gasto quando vi o brilho dos olhos dela, – ela foi achada morta.

Porque alguma pessoa, igual a mim e a você, trabalhadores, vítimas de si mesmos e de sua história, vítimas de um sistema econômico-político torpe e selvagem, agressivo, guerra de todos contra todos, vítimas das circunstâncias, da eventual descarga hormonal que rolar, uma pessoa com dramas e sortes, idas e vindas, com a sua parcela de construção do mundo, estuprou a Clarice.

Fiquei mal até descobrir o nome, porque quando descobri não parava de emitir incessantemente na minha cabeça aquele som, som que representava a sua pessoa, de maneira a canalizar todo o meu ódio para poucos fonemas, poucos contornos e pouca imaginação.

Tudo no mundo faz sentido até você se foder, padeiro.

Quando você se fode inteiro, a resposta-reflexo que o mundo recebe é mais um desajustado que vai aparecer no noticiário.

Mas sabe que só agora eu entendi? Depois de tantas sentenças, de tirar tanta pessoa podre da cadeia, de colocar tanto inocente lá dentro, de chorar tanto, de estudar tanto, de viver tanto minha profissão que era de certa forma a fé que eu nunca tive, depois de tantas visitas à cadeia, de ter sido assaltado tantas vezes, de ter conversado aquele dia com o Pedro, que desistiu de me assaltar e me pediu desculpas, depois de tantos sexos mal-feitos com a Beatriz por causa do stress tenebroso que rolava por cada centímetro do meu eu-consciente e cada parcela das minhas entranhas, eu entendi, Seu Padeiro.

Você não se importa mais com as circunstâncias nem conseqüências de um ato brutalmente animal porque entende que toda essa construção sistemática em forma de sociedade é uma máscara para nosso instinto animalesco, para nossa sorte grotesca, para o caos que nos é natural e inerente, para a loucura pura e plena de sermos o bicho mais aniquilador que existe.

Um dia eu acreditei e lutei por tudo aquilo que faz sentido. Pra mim também fazia.

É fácil acreditar e lutar, até o momento em que perdemos o controle sobre nós mesmos.

Agora eu entendo. Se arrepender depois de fazer uma grande merda É possível. A gente nunca vai controlar, seja lá qual ferramenta resolvamos usar, essa animalidade toda reprimida que está dentro de nós, perpetuada e carregada como um fardo, como a negação de uma podridão que nos é toda nossa e natural, sem a aceitação necessária para que sofrêssemos menos do que sofremos hoje, condição débil a do ser humano.

E depois de tudo isso, sem me conhecer nem uma centelha, vem querer me falar de paz? Ah, vai se ferrar! Paz é isso, paz é eu aceitar o prazer que nasce a partir da vingança, é deixar essa coisa maravilhosa – que seu sistema-imposto-pelo-qual-já-lutei-tenta-destruir – inundar todo o meu corpo e a minha mente.

A diferença é que não me arrependo. Me arrependesse e não estaria em paz.

Mas não se preocupe, padeiro, é insegurança jurídica-política-social demais o homicídio enquanto realidade. Não vou viver à margem do seu sistema. Não tenho mais idade nem pique pra isso. Vou até a delegacia depois do banho, fique tranqüilo.

Só não me venha falar de paz antes do primeiro banho da sua vida.