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segunda-feira, 25 de junho de 2012

Creme de alface




Creme de alface - Caio Fernando Abreu


Enfim, enumerou na esquina, Raul se enforcara no banheiro, cinco anos exatos amanhã, e este maldito velho com passinho de tartaruga bem na minha frente, eu tenho pressa, quero gritar que tenho muita pressa, Lucinda quebrou as duas pernas atropelada por um corcel azul três dias depois de Martinha confessar que estava grávida de três meses, e não quer casar, a putinha, desculpe, mas o senhor não quer deixar eu passar? tenho pressa, meu senhor, o telegrama, a putinha, crispou as mãos de unhas vermelhas pintadas na alça da bolsa, pivetes imundos, tinham que matar todos, venha urgente, ir como com aquele desconto de trinta por cento no salário e todos os crediários, papai muito mal pt., apoiou-se, não, não se apoiou, não havia onde se apoiar, apenas pensou no apoio de alguma coisa sólida que não estava ali, havia só os corpos, centenas deles indo e vindo pela avenida, ela roçando contra as carnes suadas, sujas, as gosmas nas lentes dos óculos, como se não bastasse a tia Luiza agora que nem criancinha, mijando nas calças, brincando de boneca, dá licença, minha senhora, tenho seis crediários para pagar ainda hoje sem falta, aqueles jornais cheios de horrores, aqueles negrinhos gritando loterias, porcarias, aquele barulho das britadeiras furando o concreto, naquele dia, a fumaça negra dos ônibus e eu de blusa branca, a idiota, introduzindo devagar a chave na porta do apartamento de Arthur, buquê de crisântemos na outra mão, uma hora tão inesperada, e tão inesperados os crisântemos, a senhora não vai andar mesmo?...

O sinal já abriu faz horas, só uma cretina seria capaz de trazer duas crianças ao centro da cidade a esta hora, ele jamais poderia imaginar, o ruído leve da chave abrindo a porta, animal, por que não olha onde pisa? atravessar a sala na ponta dos pés, abrir a porta do quarto e de repente a bunda nua de Arthur subindo e descendo sobre o par de coxas escancaradas da empregadinha, meu deus, mulatinha ordinária, se pelo menos fosse uma profissional, eu podia entender, vomitou no elevador sobre os crisântemos amarelos, não, não sei onde é Casa Oriente, pergunte para o guarda, agora ele vai morrer, será castigo? câncer no baço, nunca mais seu cheiro de cavalo limpo, nunca mais o peso e os pêlos de seu peito sobre meus seios quase murchos, a putinha, a mulatinha vadia, por cima este calor absurdo em pleno inverno, o eixo da Terra, dizem, a estufa, o ozônio, tudo um horror, em dez anos estaremos todos surdos, cegos, envenenados, as lãs do começo do dia vertendo suores entre as pernas, como é que uma gorda dessas pode sair à rua ao lado de outra gorda ainda mais larga? fazem de tudo para atravancar o movimento alheio, se pelo menos tivessem avisado a gente, você não vai me vencer, ouviu bem sua vida de merda? eu vou ganhar de você no braço na raça e quem se meter no meu caminho eu mato, sem falar no Marquinhos o tempo todo enfiando aquelas coisas nas veias, roubando coisas pra comprar a droga, e sou eu sozinha quem carrega todo esse peso nas costas, isso ninguém percebe, ninguém valoriza, não, eu não nasci para viver neste tempo, sensível demais, no colégio já diziam, certo talento pra dança, eu tinha, e a Lia Augusta agora querendo ser modelo, fortunas naquelas fotos, não tenho nada com isso mas falei assim pra Iolanda, bem na cara dela: é tudo puta, o senhor por favor poderia fazer o obséquio de tirar o cotovelo da minha barriga? porque precisa ser super humana, vocês estão me entendendo, seus porcos, boiada, manada, desviou com nojo do velho, a pústula exposta, vai pedir dinheiro na Secretaria da Fazenda, já cansei de dizer que mendigo é problema social, não pessoal, a cadela da Rosemari bebendo cada vez mais, meio litro de uísque até o meio dia, depressão, ela diz, no meu tempo isso tinha outro nome, pouca vergonha era como se chamava, este fio fino de arame atravessado na minha testa, de têmpora a têmpora, vibrando sem parar, é preciso sim ser biônica atômica supersônica eletrônica, vocês pensam que eu sou de ferro?

Quando ia começar a rir alto parada na esquina, viu a bilheteria do cinema, a franja de Jane Fonda, imaginou a temperatura amena, o escuro macio na medida exata entre o seco e o úmido e pelo menos, decidiu olhando o relógio, ainda dá tempo, os crediários podem esperar, pelo menos duas horas santas limpas boas de uma outra vida que não a minha, a tua, a dela, a nossa, uma vida em que tudo termina bem.
Foi então que a menina segurou seu braço pedindo um troquinho pelo amor de deus pro meu irmãozinho que tá no hospital desenganado, pra minha mãezinha que tá na cama entrevada, tia. Ela disse não tenho, crispando as unhas vermelhas na alça da bolsa enquanto puxava a entrada do outro lado do vidro da bilheteria. A menina insistia só um troquinho pro meu irmãozinho e pra minha mãezinha, moça bonita, e tão perfumada. Ela repetiu não tenho e de novo não tenho, mas a menina olhava o troco pedindo cinqüenta centavinhos, uma tia tão bonita, eu tô com tanta fome e o meu irmãozinho desenganado no hospital e a minha mãezinha entrevada em casa, eu que cuido. Ela gritou não tenho porra, e foi tentando andar em direção à porta do cinema, não me enche o saco, caralho, em volta os outros olhavam, e não me chama de tia, mas a menina não largava seu braço. Assim:

Assim: ela segurando com força a alça da bolsa fechada enquanto tentava andar, e sem querer arrastando a menina que não parava de pedir. Ela sacudiu com força o braço como quem quer se livrar de um bicho, uma coisa suja grudada, enleada, e foi então que a menina cravou fundo as unhas no seu braço e gritou bem alto, todo mundo ouvindo apesar do barulho dos carros, dos ônibus, dos camelôs, das britadeiras, a menina gritou: sua puta sua vaca sua rica fudida lazarenta vai morrer toda podre.

Tão exato, subitamente. Inesperado, perfeito. Mais contração que gesto. Mais reflexo que movimento. Como um passo de dança ensaiado, repetido, estudado. E executado agora, em plenitude.
Ela ergueu a perna direita e, com o joelho, pelo estômago, jogou a menina contra a parede. A menina escorregou gritando cadela filha da puta rica nojenta vai morrer toda podre. Mas tantos carros passando e tanto barulho mas tanto, justificaria depois, à noite, na mesa do jantar, bem natural, servindo a sopa ainda não decidira se de ervilhas ou de aspargos, sabem, hoje me aconteceu uma coisa que, tudo vibrando tanto, tudo girando tanto, tudo se movendo tanto, esse arame atravessado na minha testa, uma coroa de espinhos. Certeira, com a ponta fina da bota acertou várias vezes as pernas da menina caída. Alonga e contrai e bate e volta e alonga e contrai e bate e volta: exatamente como numa dança, certo talento, todos diziam.
Mas não esperou pelo sangue. Afastou as pessoas em volta com os cotovelos, só o tempo de comprar um pacote de pipocas, para afundar naquele escuro exato, nem úmido nem seco, em tempo ainda de ver no espelho da sala de espera uma cara de mulher quase moça, cabelos empastados de suor, roxas olheiras fundas e mãos de unhas vermelhas pintadas crispadas com força na alça da bolsa.

Quase uma assassina, não pensou, meu deus, quase uma criminosa, espalhando-se sem horror na poltrona no momento em que as luzes começavam a diminuir. Apertou a bolsa no colo, puxou com as unhas, para baixo, a gola alta arranhando o pescoço, cheiro meu de bicho eu brotando do meio dos meus seios quase murchos, seis crediários e esse dinheiro por um filme que nem sei direito, Arthur deve estar morrendo mais um pouco agora, os cabelos finos e frágeis da quimioterapia. Ah, se enforcar feito Raul, se deixar atropelar igual Lucinda, regredir como tia Luiza, emprenhar que nem Martinha, trair como Arthur, se drogar igual Marquinhos, beber feito Rosemari, virar puta que nem Lia Augusta: biônica atômica supersônica eletrônica catatônica o dia inteiro no canto do pátio, enrolando no dedo uma fio de cabelo ensebado, os outros mijando e cagando em cima dela, a pia cheia de louça de três meses, lesmas, musgos, visgos, deixar apodrecer a vida como a vida deixou apodrecer o coração, não, não nasci para este mundo, a bunda nua subindo e descendo sobre um par de coxas alheias, ainda por cima mulatas, nunca mais e eu de blusa branca e com crisântemos amarelos, puta fudida, cadela escrota, ai que vou morrer toda podre por dentro, por fora.

O bico da bota ardia querendo mais, cinco anos no fundo de uma cama, e de repente o contato do joelho quente de uma perna estendendo-se da poltrona ao lado, tentou prestar atenção nas imagens, a silhueta das cabeças, meu deus, que boca tem a Jane Fonda, pensou em mudar de lugar, mas tão cansada, um oceano de paz, e antes de decidir arriscou um olho para o nariz poderoso do macho ao lado desenhado no escuro a seu lado, e suspirou mole, por que não, ninguém vai saber, cadela gorda no cio afundada cada vez mais na poltrona, a boca cheia de pipocas.

Pouco antes de abrir as pernas deixando os dedos dele subirem pelas coxas, bem devagar, para não assustá-lo, ainda esfregou as palmas secas das mãos uma contra a outra, tão ásperas, o espelho da sala de espera, uma lixa, que pele meu deus tem a Jane Fonda, o lixo das ruas e o roxo das olheiras tão fundas, mas tão fundas pensou acariciando o rosto enquanto um dedo dele entrava mais fundo, tão fundas que resolveu, eu mereço, danem-se os crediários, custe o que custar saindo daqui vou comprar imediatamente um bom creme de alface.

sábado, 16 de junho de 2012

Demorei...




Demorei pra perceber muitas coisas na vida. Demorei a curtir uma boa música. Mas quando descobri o rock, não teve volta. Depois veio o samba, o jazz – percebi que a vida sem música era barulhenta. Ao contrário, com a música conseguimos sentir o silêncio dos nossos sentidos. Demorei pra perceber como a mudez, num ambiente de música agradável, desnuda as sensações de felicidade que tentamos ocultar por timidez. As músicas garantem os sorrisos, a atração dos corpos, os passos de dança, o suor misturado e a nova tentativa de recriar um sentido para a vida.

Demorei pra perceber que a beleza está em lugares secretos e misteriosos. Lugares por vezes indescritíveis. O belo, a potência que ele nos estimula e revela, o encanto desejante: o belo nos dá a exata noção de nossa falta perante o mundo. O belo desenha o vazio do humano perante o mundo que escapa, cotidianamente, de suas mãos. É no belo que o ser humano esvaziado aprende a desejar. É no belo que o ser humano se percebe, ao mesmo tempo, fraco e fortalecido, egoísta e generoso. Há algo de singularmente belo no simples. A simplicidade possui um sabor que lhe segreda a potência num mistério inenarrável.

Demorei pra perceber a importância da cumplicidade entre os amigos. Demorei pra entender que a amizade não é interessante enquanto uma corporação instituída e sempre instituível. A amizade guarda sua força instituinte nos movimentos espontâneos das subjetividades que se encontram. A força da amizade é sua capacidade espontânea de aproximar os corpos. A amizade é uma biofísica, questão fundamental para que se repensem as teorias políticas todas. Já que é mania da ciência bem comportada anular o afeto que marca a superfície de seus objetos.

Demorei pra perceber que arte não é uma técnica, mas uma convulsão. Só concebo o artista como um revolucionário, o que me implica a conceber o revolucionário apenas como um artista. E há artistas suficientes para alimentar os desígnios do bem ou do mal, isto é, qualquer poder faz arte. Vejo diante de mim Banksy, grafiteiro inglês, quando decidiu desenhar a cor da vida nos muros de Israel. Naquele dia, Banksy realizou um projeto: elevou a importância de sua arte à importância mesma de sua vida. Desafiou sua existência mundana e a presença da morte naquele território belígero, quando os judeus assaltaram a cultura dos palestinos. Em meio a tantos homens armados com metralhadoras, treinados para atirar em todo e qualquer detalhe que atente contra a ordem vigilante, Banksy desafia a sensibilidade do mundo: coloca uma escada gigantesca e confere brilho ao monocratismo que o ódio e a guerra impõem. Banksy se tornou um nome revolucionário justamente pelo seu anonimato. Sua atuação nos faz lembrar que nosso cotidiano está repleto de artistas revolucionários (pleonasmo!), ocultados pelas relações de dominação da sensibilidade, controle social dos corpos e gestão ideológica dos desejos. A verdade é que a política serve para anular a arte.

Demorei pra entender a importância do mar. Das árvores. Dos animais, sobretudo os pequeninos. Demorei pra perceber que tudo se trata de perspectiva. E aprendi a olhar com olhos novos, porque livres. Ver com olhar livre. Ser humano na liberdade concreta da terra, da fruta, do cultivo ecológico, da economia lidibinal dos corpos, da felicidade do convívio respeitoso com a mãe natural. A importância do gênero feminino, a importância do ser mais fraco, a necessidade de proteção e guarida ecológica àqueles ameaçados de aniquilação, a doçura emocional que as práticas conscientes geram no mundo. Cada cor de cada flor é um movimento heurístico. O sentido do mundo ou da vida está para ser lançado a cada novo golpe das incertezas históricas. Num pequeno gesto de amor reside a violência mais brutal. O atentado mais vigoroso contra as estruturas é subverter os seus pressupostos. A maior agressão contra a insensibilidade cotidiana é o abraço compartilhado. É por isso que o artista é um revolucionário: a arte violenta de Gandhi foi demonstrar que a brutalidade pode ser subvertida e deteriorada pelo gesto de pacificação. Gandhi foi muito mais violento que Hitler, na melhor acepção possível: agrediu a torpeza do sistema com a atitude corajosa do amor.

Demorei muito para entender que amar significa antes de tudo ser forte e, na sequência, estar disposto a testar os próprios limites. O amor recoloca na agenda existencial a pauta do vazio, da falta, do sentimento intenso de incompletude. A descoberta do amor é a descoberta de que não somos seres autossuficientes. Amar é esquecer por um momento que se existe e se morre e que nesta ilação não reside sentido que o valha. O amor desconecta para reconectar em outra instância de comunicação semântica. Amar é se deixar transfigurar. O amor é a trama que põe os corpos dos seres em mutação. Com um detalhe: não há retornos, nem progressos, apenas a heurística do rompimento. Amar é perceber que o outro rompe o que somos, rompe nossos obstáculos, rompe nossa cadeia desejante, transgridem nossos projetos sintomaticamente bem acabados, fazendo despertar o artista ou revolucionário que todos e cada um de nós estamos habilitados a ser.

Demorei pra entender que estar consciente das minhas faltas e das faltas do povo é a conscientização política por excelência, que só assim permite uma existência engajada na luta contra a dominação dos seres humanos. Se há por aí quem diga que os próprios sujeitos são criação interessada, então a luta deve ser pela libertação da mundanidade orgânica dos povos, seja lá qual subjetividade ou sujeito lhes esteja incutido. E não importando a boa ou má-fé do ser dominado, lembrar sempre, e em última instância, que todos merecem ser constantemente libertados de todas as opressões. Mais que isso: o vocabulário e o calendário da dominação estão longe de perder atualidade.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Minha homenagem a Fernando Pessoa



Carta de perguntas ao querido Fernando Pessoa


Se hoje sou como sou
Há algum mau nisso?
Se hoje sou mal aquilo que era
Há pecado nisso?
Se diminuí, em vez de aumentar,
A culpa é também minha?

Se hoje pudesse ser o que penso ser
E, pensando e sendo, acontecesse de crer
O que diria? Que evoluí?

Que me tornarei um revolucionário?

Se ontem eu sou me perdendo
E amanhã posso fugir me encontrando
Que mal há, me diga, em fingir que me engano?

Só pra te enganar.

E se eu escolher
Não mais me ser?
E se por livre e espontânea vontade
Eu quisesse que o que tinha sido,
Aquilo que tinha passado, caído,
Não me servissem de memória
Nem pudessem definir minha identidade?

E se eu não quisesse registros?

Se amanhã queimar meus registros
E não me tornar o sendo que ontem fui
- O que você tem a ver com isso?

Devo-te satisfações?
Devo-te?
Não lhe devo nada
Porque nem eu mesmo posso saber de mim

Se ontem fui o que não pude não ser
Se me arrependi e neguei minhas falhas e omissões
Se tanto faz o que fizesse que fosse,
Ainda que eu tivesse erro e errando e errará mais um montes
Ainda assim não me cabe o perdão?

Que me diz de você?
O mesmo todos os dias diante do espelho?
Cada dia um diferente a respaldar o cotovelo?
E no banheiro?
Nos banhos e nas espumas,
São quantos e quantas de você?

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Os sentimentos de Sartre em nós



A primeira coisa sobre a qual refleti hoje ao acordar foi minha postura diante dos últimos acontecimentos. Mais que isso, nos efeitos que o meu procedimento despendeu no mundo, nas pessoas, no sentimento dessas pessoas. Lembrei-me quando Sartre diz, no Existencialismo é um Humanismo, que os sentimentos também são definidos por ações.


Ora, só há como identificarmos um sentimento por alguém a partir do momento que certas atitudes, posturas e escolhas são exercidas de maneira concreta. Os sentimentos, mesmo para quem os sente, não podem ser definidos a priori. Não podemos identificar a pulsão que nos impele a se mover e a agir sem antes nos mover, sem antes agir. A ação, o gesto, os movimentos corporais são justamente a única catarse que o sentimento encontra para irromper no mundo.


Não posso consultar a minha memória, que registrou todas minhas impressões sensoriais, para decidir sobre qual caminho vou percorrer. Percorrendo é que me descubro. Na auto-descoberta é que me percebo amando. Em outras palavras, se sinto uma forma de anseio que viso realizar, mas uma pessoa que me é afeta não concorda com aquilo, o único caminho para que se descubra qual dos dois vou escolher somente pode ser a própria escolha. Por mais que eu já tenha experimentado o sabor e o dissabor que os acontecimentos da vida me causam - isto é, a realização daquele desejo, a presença daquela pessoa - nunca poderei ter por revelado qual deles prefiro antes da própria escolha. Não posso me perguntar “de qual gosto mais” para saber como proceder. É procedendo que descobrirei de qual eu estou gostando mais no presente momento.


É nossa escolha, de maneira essencial, que faz o mundo irromper dentro de nós, debater-se dentro de nós. Na mesma medida, só mesmo a escolha viabiliza o processo no qual o outro vai me captar, me entender, me compreender, me sentir. A ação da escolha faz o mundo irromper em mim e, neste processo, irrompo no mundo. É no olhar e na palavra que descubro o mundo e que me revelo para ele; nunca em exercícios de introspecção consultiva.


Talvez seja isto o que Sartre sentia por existencialismo. Viver sob o leque infinito e transbordante do gesto, das possibilidades que a ação pode viabilizar ou, até mesmo, gerar. A ação é tão fabulosa que é capaz de criar artifícios e seduções de acaso que, no mais das vezes, servem de instrumento para que a dominação seja exercida de forma afetuosa, aceitável, legítima.

domingo, 15 de novembro de 2009

A crise institucional da Justiça e a crise individual da moral





A Justiça e a moral são objetos de inúmeras definições, conceituações e críticas. São, foram e continuarão sendo, dada a amplitude de seu conteúdo. Essa dissertação, no entanto, não buscará, historicamente, os inúmeros conceitos que elas adquiriram, mas constatar sua crise e propor meios viáveis para sua superação.

Nossa Justiça é, na maioria das vezes, injusta. Sua parafernália, seus aplicadores, seu estudo, nada parece romper com a barreira tecno-burocrática que existe entre ela e aqueles que dela necessitam. A dinâmica que faz o maquinário da Justiça funcionar não concorre com o tempo cotidiano da vida humana. Os prazos; as formalidades; os discursos retóricos e vazios; as litigâncias de má-fé; o uso inescrupuloso das várias instâncias recursais só fazem pensar que o dito “impulso oficial” é muito fraco, fazendo com que o processo não se locomova célere e economicamente. Isso significa que a Justiça – enquanto instituição sócio-política que se pretende democrática – está em crise.

A moral que dita nossas atitudes, de maneira semelhante à Justiça, também é muitas vezes imoral, por mais contraditória que essa afirmação possa parecer. O conhecido “jeitinho brasileiro” funciona como uma ética do malandro, com a qual as atitudes e escolhas humanas dos componentes de nossa nação se tornam o meio para a concretização de anseios individualmente egoístas. Não importam a classe social, o poder aquisitivo, a função social, ofício ou trabalho realizados, tampouco a grandeza da carga ético-moral de determinadas atitudes: a todo tempo, nos mais diversos ambientes, das formais mais inesperadas possíveis, alguém tenta obter vantagem própria, prejudicando a outrem de maneira ativa ou passiva.

Esse posicionamento perante a vida e a sociedade faz salientar o fato de que o sistema vigente, no qual estamos inseridos, impõe-se de uma tal forma que cria a ilusão de que o importante e legítimo é justamente se dar bem, sair por cima, com o menor prejuízo possível. É como dizer que num sistema político-econômico pouco acessível e ditado por minorias como é o nosso, excludente e corporativista, atitudes imorais acabam ganhando carga de logicidade na medida que compactuam intrínseca ou extrinsecamente com o sistema que se impera perante nossos olhos e por sobre nossas necessidades.

A moral só existe porque o homem não expressa espontaneamente suas virtudes. A Justiça só se formalizou porque o homem não se relaciona com seu semelhante de maneira justa. Essa crise de dupla face constantemente evidenciada nos estudos científicos da sociologia jurídica, que borbulha na sociedade dos jeitos mais variados, introjetada em nossa cultural a ponto de se arraigar em nosso caráter, possui uma solução?

Inúmeros pensadores se fizeram essa pergunta. Muitos deles acreditam realizar faticamente posturas que vão contra essa lógica absurda, como o Juiz Souto Maior em suas sentenças, ou mesmo como o escritor José Saramago e o sociólogo Boaventura de Sousa Santos em suas obras. Com relação à crise institucional da Justiça, que nos é muito perceptível, a solução parece clara, embora difícil de ser posta em prática. Isso porque reformas processuais; modificação de ritos procedimentais; contratação de mais profissionais, com maior capacitação, apenas farão o problema se expressar de maneira distinta, no qual a forma será diversificada, mas seu conteúdo permanecendo o mesmo. O que nos leva a pensar que o Direito, de maneira diametralmente oposta ao pensamento dominante, precisa ser diminuído em vez de aumentado.

Ou seja, a crise institucional da Justiça só será solucionada quando seu campo de atuação for restringido, quando diminuída a sua competência, quando o direito – e não apenas o direito estatal – puder ser utilizado como instrumento de transformação sem a necessidade de atender os desejos da Lei, do Estado, do costume. O pluralismo jurídico, constatado por Boaventura e investigado por Wolkmer, comprova que a solução para esse problema institucional apenas pode ser encontrado fora da própria instituição. Uma democracia a serviço da Justiça, ou uma Justiça a serviço da democracia, deve prescindir de espaços próprios para ser concretizada e realizada. Deve sair dos fóruns e ir às ruas. Também deve prescindir de técnicos específicos, mas privilegiar a atuação dos cidadãos e a solução do litígio por meio da transdisciplinaridade.

É o caso da Justiça Restaurativa, que busca colocar a situação problemática abordada como um fato consumado, na tentativa de restaurar às partes as condições nas quais se encontravam antes do problema. Com essa Justiça, democratiza-se o espaço de realização e busca da justiça como imperativo ético-existencial.

Mas isso só será possível quando pudermos, antes de tudo, nos libertarmos da tentação de ir contra uma moral vigente. O filósofo Nietzsche, crítico da moral, salientava que num mundo onde as virtudes fossem exortadas espontaneamente, um sistema moral seria desnecessário. A moral está posta e nos é imposta, mas não nos atingirá quando tomarmos consciência de que nossas atitudes e escolhas são voltadas para o futuro e possuem como reflexo o mundo em crise que vemos nos noticiários e estudamos com as ciências.

Essa postura de ser o humano o próprio responsável pelo mundo que possui, mundo este composto pelos milhões de atitudes e escolhas realizadas a todo momento, parece ser a sentença do filósofo Sartre quando de seu julgamento do homem situado em seu mundo: o próprio humano – considerado individualmente quanto a sua capacidade de escolha, mas estruturado coletivamente quanto às consequências que suas escolhas geram – é o primeiro e último responsável pelas mazelas que acometem as diferentes instituições que formam o nosso mundo. E só depende dele a mudança, pois no dizer de Sartre, “não importa o que fizeram do homem, mas o que ele fez do que fizeram dele”. O nosso agir cotidiano e não-sistemático é o que fazemos em relação ao que fizeram de nós.

sexta-feira, 25 de abril de 2008

Hipocresias de valores inabaláveis como a infância

A próxima geração


Todos os brinquedos que me deram solaparam minha criatividade.
Fui uma crinaça que mexeu bonecos, carrinhos e chutou a bola.
Tudo porque quiseram que eu reproduzisse o mundo deles,
Que não era o meu.

Quiseram que eu imitasse o resto.
E fizeram isso com todas as crianças.
Porque quando eu digo que só aprendi a andar de bicicleta aos 14,
Me perguntam se eu não tive infância.

Aí eu respondo que eu tive infância,
A única diferença é que não andava de bicicleta.

Realmente não tive possibilidade de escolha
Entre andar a pé ou andar de bicicleta.
Mas, pelo menos, antes eu me condicionar pelas minhas debilidades,
Que ser condicionado pelas debilidades deles.

Crescemos reproduzindo tudo.
Chega um momento que determinamos o que será reproduzido.

Cuidado.
Você, que virou pai e que virou mãe.
O que quer que seu filho reproduza?
A moral Deles, a moral deles, a sua moral?

Tentem ao máximo fazer com que eles não reproduzam, mas criem.
Para não serem como eu e você.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

... de repente brotou um tremendo matagal!

É engraçado ter falado de droga e questão de legalização, né? Vai demorar pra acontecer no Brasil porque muito empresário e político lucra com tráfico. E é um jeito interessante, pra eles, de fazer a manutenção da pobreza de alguns grupos sociais que dependem de seu comércio pra viver. Pensa da seguinte forma: porra, eu tenho uma empresa de transportadoras, tenho aval pra transporte de inúmeros produtos, caminhões, bons contatos, bastante dinheiro, empregados corruptíveis. Sou amigo do Patife-x, senador, ampla área "juridicional" (pra debochar e falar sério ao mesmo tempo) na cidade de Piroroquinha do Norte, do lado de onde se encontra minha empresa, em Deserto Suado. Tranquilo arrumar um telefone ali ou acolá, desses fazendeiros bolivianos ou colombianos lá do oeste, mas bem do oeste mesmo, e trazer o ilícito aqui. A gente arruma dum jeito que niguém vai saber mesmo...

E depois, a gente dá algum ganha pão pra gentalha, né? Põe o corpo da rapaziada carente pra tomar tiro no peito lá no morro! E já abre 200 vagas pra polícia civil, fala pro Patife da Silva, isso aquele da banca examinadora, fazer uma prova facinha no concurso desse ano. Pronto, pega galera do mesmo nicho social, dá pouco dinheiro pra eles não irem nos reustaurantes, teatros e mostras culturais que a gente vai, escreve num papel que uma coisa mó comum nas tribos indígenas - mas que virou costume urbano-, fumar essa tal erva chamada maconha, tá proibido. A gente compra a erva lá do Tiozão San Juan do Capin, joga na mão desses doido na favela. Faz eles criarem uma guerra contra eles mesmos no mais das vezes, só que já que é policial, a gente manda com base na lei. Os que são do morro, ah, a gente manda com base na Lei. Isso, agora eles se matam, a gente faz genocídio étnico, cultural e ideológico igual o Hitler ou o Stálin, mas sem ninguém perceber. Lucra e arrasa.

É, o Patife-x nunca quereria perder esse ganha-pão pra uma parcelinha, chamada tributo, imposto, da puta renda que o Jucão Pereira fez em cima do comércio legal de maconha. E olha que o filho da puta não tinha nada hein, começou do zero. É essa merda de novo estatuto nacional da microempresa e empresa de pequeno porte ( http://www.planalto.gov.br/CCIVIL/Leis/LCP/Lcp123.htm ) que incentivou esses imigrantes de bosta a juntarem uma merreca por gerações e conseguirem por fim abrir uma empresa. Patife-x, se cai nessa burrada, a gente escuta depois "merda, falei que era errado legalizar a droga, o puto tá com monopólio privado do troço, vendendo um monte, o corno".

Acho que por isso não legaliza.

Maaaaaaaas se um dia legalizar, ia ser engraçado, por exemplo, a venda de baseados light. Esse aqui não ferra o pulmão. O que não iam falar é que esses vêm com trezentos produtos químicos que acabam fodendo seu fígado e seu cérebro. Mas tudo bem, o comercial com o galã da Malhação ficando locão na academia e não perdendo o fôlego pra puxar ferro me convenceu. Ah, que nada cara, e aquele da Baseadus-now Light, não viu? Que tem a Agenlinha Biscatona do BBB fumando um, ficando locona, indo colocar o biquini pra fazer natação, mas que acaba colocando um menor e... é, ela mesma, mó gostosa cara... e vai nadar. HAHAHA. E nada pra kct, né? Li na Caras que é nadadora mesmo. Po, gostosa e nadadora, não deve ferrar o pulmão mesmo.

Legal que ia sair a figura do político e entrar a figura do dono das emissoras de tv-patifaria e das editoras de revistas-patifisse no ganhã-pão da coisa. Realmente não dá pra fazer tudo sozinho, tem que preparar seu netiuorqui.

Mais legal iam ser os baseados que não deixam louco, para caretas! Ia jogar na cara dos clientes que eles precisavam de inclusão social, na caruda! Ih, e você que fuma cigarro não ri muito não que também precisou de aceitação social, mané! Ficava fumando careta pra pagar uma, fumou 20 maço até viciar, e agora manda os religiosos 2,70 pro Morris. Aeeeeeeeeeeeeeeee, se humilhou!

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Se expressar pra não emputecer

Eu sempre achei esse troço de blog uma merda. Mas pode ser uma boa ferramenta pra várias coisas. Sua dinâmica é interessante pra usarmos nossa liberdade de expressão1,afinal ela é garantida pela Constituição Feral.

Ah, então eu posso ir na frente da câmara dos deputados e ficar peladão como forma de protestar contra os valores vigentes na nossa sociedade de hoje? Acho que não, ninguém tá interessado em desvalorizar/descatolizar o pinto e a buceta, dar esse passo tão importante de retorno à cultura indígena. Foda-se seu pipi e o do índio, você só pode se expressar do jeito que A Gente quer! Além de ser preso por ultraje público ao pudor2, o conglomerado da cueca e da langerri3 sempre estariam na minha cola. Isso me faz pensar que, na verdade, não querem que eu me expresse! Mas pera aí, a CF é a lei mais forte no sistema jurídico. Será que esse artigo do Código Penal é inconstitucional?

Aliás, pra ser sincero, eu acho que o cara que inventou a cueca devia ter o pinto muito pequeno pra querer esconde-lo tanto. Mas e daí que o pinto do cara era pequeno, coitado? Coitado o cacete, ele aproveitou o valor católico da genitália junto com o valor sócio-biológico da obrigatoriedade da virilidade masculina (nesse caso expressado esteticamente) pra lucrar em cima... e conseguiu! E com certeza transou com várias mulheres mesmo tendo micropênis.

Bom, como meu pinto também é pequeno e eu não inventei a cueca, decidi escrever o blog pra conseguir ficar rico, famoso e transar com todas as mulheres que eu quiser. Só que já to fudido, rico não vou ficar porque ainda não contratei o serviço de 0800 pras doações ao blog. Pegar todas as mulheres que eu quiser fica meio difícil depois duma confissão tão íntima. E a única fama que eu vou ter é de bilu.

Já que de início meus objetivos se frustraram por serem muito difíceis de se realizar4, achei melhor usar o blog pra me desabafar. Isso não quer dizer que vocês vão ficar sabendo quando alguma namorada minha me chifrar ou que eu consegui fazer baliza sem raspar a roda inteira na sargeta. Mas sempre que eu quiser fazer algum apontamento sobre fato da vida que me incomodou, e não achar que é babaca o suficiente pra que eu fique quieto, vou escrever aqui.

Nota de rodapé e artigos da CF e do CP realmente evidenciam que isso deve ser o blog de um CDF, chato, sem graça, com baixa auto(?)-estima e que ainda por cima faz direito. Mas eles são necessários: nota de rodapé ajuda a organizar o texto porque possui informações complementares. Se não forem lidas, não prejudicam o entendimento. Mas se forem, podem evidenciar suas razões de ser. Por exemplo, como direito é chato demais, é melhor colocar a fundamentação jurídica do que to denunciando num rodapé. Aí lê quem tem saco de fazer uma pesquisa de campo em cima das minhas palavras.

E pra que ficar falando de lei num blog?! Na verdade, pra mostrar a praga que o direito é, sendo onisciente, onipresente e onipotente. E como ele dita nossa vida, muitas vezes sem nem mesmo percebermos. Se as leis são feitas por meia dúzia de locão e elas controlam nossa vida, então essa meia dúzia de locão tá de certa forma controlando nossa vida. Poxa, que rapaz inteligente!

Mas até aí, junto com o direito, os nossos valores culturais também ditam nossa vida. Daí que o intuito é me desabafar jogando toda a culpa da minha amargueza em cima do direito e/ou desses valores culturais.

Afinal, como já disseram uma vez, no nosso mundo uma bunda vale mais do que mil cérebros. E como na academia não tenho hábito de malhar glúteos, é bom que eu tenha grandes idéias pra serem expostas aqui.




1 Art. 5º, inciso IX – "é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença;" da Constituição Federal.


2 Art. 233. "Praticar ato obsceno em lugar público, ou aberto ou exposto ao público:

Pena – detenção, de três meses a um ano, ou multa." do Código Penal.


3 "Lingerie" é uma palavra francesa, abrasileirei porque prefiro assim.


4 não coloquei no plural porque geralmente é a gente mesmo que realiza objetivos né, eles não se realizam sozinhos