O eterno-retorno do mesmo é uma ideia elaborada por F. Nietzsche. Significa que voltaremos eternamente ao mesmo instante-já, repetindo ações e ressentindo emoções. O eterno contorno significa, ao revés, que temos uma tendência a contornar situações que não compreendemos. Em vez de aceitarmos a eterna oportunidade de vivenciar aquilo que mais potência nos faz sentir, acabamos tangenciando nossa própria existência. Em vez de retornarmos, envidamos uma fuga eterna.
quarta-feira, 15 de agosto de 2012
A Biblioteca do Pluri-verso
domingo, 24 de junho de 2012
Autocontrole
FAZ MAIS ou menos um mês, ouvi uma mulher dizer que nunca iria a uma nutricionista gorda. Semanas depois, um amigo demonstrou preocupação ao descobrir que seu psicanalista fumava. Segundo eles, ao que parece, não pode cuidar da dieta ou da ansiedade alheia quem não controla os próprios impulsos.
Ah, que época bunda-mole a nossa! Elegemos como principal virtude justo a mais medíocre: o autocontrole. Foi-se o tempo em que o herói era aquele capaz de romper as amarras sociais, morais, históricas. De enfrentar o mundo em nome de um ideal ou de dar um piparote nas sentinelas do superego em busca de seu eu profundo.
O Super-Homem atual é o que, avaro com os prazeres, melhor consegue inserir-se nos escaninhos disponíveis do mundo. É um profissional bem-sucedido e com barriga de tanquinho. Seus feitos não serão medidos pelas marcas deixadas na história, mas pelo extrato da conta bancária e pela taxa de colesterol.
Não falo de fora. Sou filho da época, também tento enquadrar-me neste anódino "zeitgeist", de sonhos tão mirrados como as cinturas de nossas divas: sou funcionário esforçado, corro na esteira, acredito nos poderes milagrosos da quinua. Quando ponho a cabeça no travesseiro, contudo, envergonho-me e lamento a grandeza perdida.
Outrora buscávamos a nascente do Nilo, a verdade última das coisas, nos metíamos no mato sem cachorro, em mares nunca dantes navegados, nos entregávamos a amores e substâncias proibidas atrás de paraísos naturais ou artificiais. Agora, aqui estamos nós, usando 30 séculos de conhecimento acumulado para vender mais pasta de dentes, mais jornais, empenhados em descobrir como fazer dez arruelas ao custo de nove e receber uma promoção; aqui estamos nós, reinando sobre a natureza, mas comendo barrinhas de cereais.
Onde foi que nós erramos? Em que beco escuro do século 20 um Mefisto chinfrim sussurrou em nossos ouvidos que alcançaríamos a vida eterna caso abríssemos mão de nossos corações em nome do "sistema cardiovascular"? Que bizarra inversão foi essa que nos fez acreditar que a função das comidas é facilitar o trabalho do sistema digestivo, e não que a função do sistema digestivo é lidar com nossas comidas? Desculpem por ser chulo, caro leitor, mas eis a ambição de nossa triste humanidade: fazer um cocô durinho.
Veja, acho bom que haja campanhas contra o cigarro. Que o exercício físico venha se tornando um hábito mais e mais comum. A vida é curta e preciosa demais para que a atravessemos com pigarro e sem fôlego. Mas é curta e preciosa demais também para ser gasta nesta liberdade (auto) vigiada, em que o prazer e a poesia são drenados a cada dia pelos ralos da eficiência.
Não creio em nada para além do último suspiro, mas ficção por ficção, sou mais Dionísio, São Francisco e Ogum do que esse culto desvairado pela bicicleta ergométrica, o Excel e a fenilalanina.
Bichos burros! Indo do berço ao túmulo agarrados às certezas mais tacanhas e permitindo-nos o mínimo de prazer, o grande legado de nossa época será belíssimos, saudabilíssimos cadáveres -injustiça, aliás, com as minhocas, que não estão preocupadas com o colesterol nem com suas anelídeas silhuetas.
antonioprata.folha@uol.com.br
@antonioprata
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidiano/49815-autocontrole.shtml
terça-feira, 5 de junho de 2012
A trilogia da erotização
sábado, 4 de junho de 2011
A juventude do ser

A juventude do ser
A minha singularidade pessoal talvez me permita conhecer uma universalidade que nos é igual. A minha mundanidade, se usada com sinceridade, pode me dirigir àquilo que ainda não toquei. O que ainda não toquei é, concomitantemente[1], o meu ser humano, o ser humano do outro e a relação humana havida entre estes seres específicos. Não há um tronco apto a unificar as subjetividades dos seres humanos, senão aquela regra que anula toda e qualquer parametrização: não existem referências postas, não haverá referências impostas[2]. E ainda que se tente qualquer movimento neste sentido, a história nos mostrará, como efetivamente já demonstrou, que tais movimentos estão fadados ao fracasso.
O meu ser humano, o eu que se torna humano à medida que vai sendo, o elemento que se formula enquanto em eterno processamento – eis o caminho que optei para decifrar o enigma de tudo aquilo que me extrapola. Ser humano é compreender a humanidade em sua mundanidade peculiar, própria de cada cultura, propósito de cada existência. É o movimento pela potencialização das subjetividades. Eis o critério universal que talvez nos sirva de parâmetro: a total inexistência de referências que se sustentem infinitamente.
As filosofias ocidentais não responderam minhas angústias. Ao contrário, aumentaram-nas. Minhas parcas leituras me arrancaram do tédio para me prenderem na depressão. A política do meu tempo, do meu país, do meu gérmen cultural, não me contempla nem contempla aqueles que são do meu povo. O trabalho não nos dignificou. O Direito, a Social-Democracia, a Ciência, o Estado, a Justiça, a Moral, principalmente o tal do Capitalismo, vieram cheios de pompa, cheios de promessas e de projetos inconciliáveis entre si.
Suas propostas calaram os insurgentes, enclausuraram os desobedientes, assassinaram nossos heróis e nossos mártires. Suas verdades, desnudas ou travestidas de perucas, serviram de instrumentos falaciosos. A positividade da ciência anulou a criatividade da arte. Criaram técnicas, fórmulas, epistemologias, castraram nossos gatos e cachorros, prenderam os maconheiros, sufocaram os homossexuais, afogaram a feminilidade da natureza e da mulher, disseram que era pecaminoso o trato da célula-tronco, mas que era um ato de fé econômica a transmutação genética de nossas sementes.
Mas fizeram mais. Deram fim ao apartheid justamente porque já haviam introjetado o preconceito em nossas entranhas. Anularam os dispositivos de controle escancarado para controlarem nossas mentes. Se somos diferentes na cor, somos idênticos na dor. Nem por isso somos respeitados, porque somos pobres, somos burros, somos sem cultura, não ingerimos nem digerimos a cultura engendrada pela burguesia revolucionária do outro século. Enganaram-nos: unificaram nossos banheiros de brancos e negros, mas nossos Parlamentos continuam monocromáticos: brancos e fálicos. Igualaram-nos na merda, mas não na benesse. Vivemos um kitsch que estratifica a estética da hipocrisia, do sabido-mas-irrevelado, do conhecido-mas-estabelecido-nos-bastidores e undergrounds daquilo que, inescrupulosamente, chamamos ethos.
Estes senhores desrespeitam, cotidianamente, as lutas culturais daqueles que se decidiram pela desobediência. Tornam o emergente um mero pingente ornamental do hegemônico. O que antes era cooptação, agora deram o nome de negociação. O que antes chamavam desaforo, hoje chamam de acordo. De acordo, Presidente. De acordo, senhor Ministro. De acordo, Excelência. De acordo, chefe. De acordo, seu Delegado. De acordo, professor. De acordo, pai. De acordo, mãe. E de tanto ficarmos assim, de acordo, eles fazem os acordos fundamentais entre eles e nos excluem. Ficamos tanto de acordo que perdemos a oportunidade de estabelecer as nossas demandas para a criação do verdadeiro acordo.
Não nos escutam. Não querem saber de nós. Se dissemos que temos direitos, lá vem eles e criam o Estatuto. Estatuto disso, Estatuto daquilo, e haja tutela jurisdicional pra cuidar de tanta fragilidade! Não! Não queremos as suas fórmulas, não queremos essa normatização desenfreada, não necessitamos este tipo de tutela burocrática. Chega de papeis, se o jurídico é desenrolado na terra. Chega de formalismos, se o político é perpassado pelo afeto. Chega de métodos e procedimentos, se o processo acerta-se durante o erro. Chega de acordos, se só somos capazes de nos entendermos mediante desacertos.
Ensinaram-me a linguagem do óbvio, como se ela fosse capaz de anular ou abarcar o absurdo. Ensinaram-me a pensar, quando o amor exige que esqueçamos da panacéia da razão. Ensinaram-me uma série de rituais sórdidos: cumpri com todos eles. Cumprimos, diariamente, com todo este arcabouço de boas maneiras e politicamente correto que cheira mal, cheira menos ética e mais oportunismo, menos ideologia e mais fisiologismo. Sinto na boca o gosto amargo de um teatro de marionetes.
Todos nós cumprimos com os mitos. Os mitos sociais, os mitos religiosos, os mitos políticos, os mitos morais e psicanalíticos, os mitos econômicos – mas os deuses por trás dos mitos não nos foram apresentados. Cumprimos com o mito sem acessar a divindade prometida. Ensinaram-nos a chamar milagre as peripécias dos ilusionistas do mercado capitalista e monopolista. Os ensinamentos de meu tempo são mordaças. Mais inteligente é aquele que não se expõe, que não se arrisca, que não se revela.
Se minha indagação existencial estivesse presa entre a concretude vivenciada e a metafísica idealizada, talvez fosse mais simples. A condição humana que se propala é pela busca de um eixo cosmológico que nos coloque a todos dentro de uma cápsula. Razão, Deus, Ecossistema, Metafísica, Direitos Humanos, tantas e tantas tentativas de enclausura. Insistem em tornar-nos idênticos para não percebermos que somos iguais no inesperado, no impensado, iguais no desigual, iguais no incompreensível, no dubitável, iguais em angústias incomparáveis.
Entretanto, estamos em marcha. A marcha é pela ocupação do espaço do possível. Pela capacidade de compreensão do que se diz cognoscível. Se o que é possível é amplo, se o possível é em si infinito, se a mensagem de fé e esperança que fica é de possibilidade, então eu me arrisco. Arrisco a me portar de modo arisco. Da mesma forma comportam-se todos aqueles que se indignaram com as consequências grotescas deste modo de operação que só visa ao próprio umbigo. Nossos passos, em marcha, podem retumbar e ribombar os sonoros audíveis que o povo pode, unido, concretizar. A sinfonia da articulação dos povos canta sua serenata. Estamos a escutar o seu prelúdio. Há dez anos, fermentando-se em gestação, parecia apenas uma linda ilusão, não é?
Pois, há dez anos, eu acreditava em heróis. Mas eram todos ridículos, porque eram todos estadunidenses. Eram heróis de mentira, super musculosos, usavam roupas coloridas, lutavam com poderes especiais que nenhum humano de verdade possui. Há dez anos, eu acreditava que o mundo era do tamanho do Universo infinito. Hoje, descobri que a imensidão do mundo cabe na casca de uma noz.[3] E então, durante este processo, pude perceber que os verdadeiros heróis vestem-se como gente da gente. Não possuem poderes especiais: ao contrário, fazem coisas especiais com os poderes que qualquer humano tem.
Os verdadeiros heróis estavam carregando suas enxadas, ou suas pastas de couro, ou estavam se maquiando diante de um espelho, amamentando, sorrindo aos mais carentes de sorriso e compartilhando da dor da fome com os irmãos de espírito. Estes heróis existiram e ainda existem. Mas, ainda assim, cético e ingênuo, incrédulo e infantil, eu teimava em achar que os heróis pertenciam apenas ao passado. Eram Gandhi, Guevara ou Marighella, e pela culpa histórica de meus pais, que me conceberam neste momento, teria o desprazer de desconhecê-los.
No entanto, de uma forma mágica e avassaladora, de um jeito prazerosamente subversor, descobri que eu vivia num tempo de heróis. Heróis que incendiavam as massas com seus sonhos e sua arte. Heróis que eram capazes de inspirar porque sabiam como desocultar os segredos que todos os humanos carregam e desconhecem. Heróis, não porque tivessem poderes sobrehumanos. Mas heróis porque conseguiam fazer da mundanidade algo divino.
Muhammad Bouaziz, meu caro tunísio, eu não tive o prazer de conhecê-lo. Talvez, se tivéssemos nascido em um berço próximo, se nossas mães fossem amigas íntimas; ou então, se por algum encontro da vida, aprendêssemos as diferentes línguas que ontem nos distanciaram – e que hoje distanciam meus irmãos dos seus irmãos – e pudéssemos conversar longamente; talvez, Bouaziz, talvez eu tivesse a honra de conhecê-lo em sua peculiaridade singular, em sua pequenez e grandeza completamente unidas, e portanto humanas. Obrigado por se tornar o meu herói, Bouaziz, mesmo me desconhecendo: você estaria sorrindo até agora se pudesse compartilhar de seu próprio feito conosco.
Bouaziz, atear fogo no próprio corpo é ato capaz de inflamar dez gerações de inconformados. Bouaziz, queremos dizer-lhe, onde quer que esteja: sua carne derreteu em contato com o fogo na mesma medida em que as estruturas institucionais apodrecidas de seu país ruíram. Bouaziz, me permita a honra de ser o meu herói, muito além de ser o herói de seu povo, porque se as línguas que nos separam podem nos distanciar, a linguagem com que nos comunicamos é de todo nossa. É a linguagem do desespero e da consequente revolta. Mas não esqueçamos: o povo realizando sua lindeza e, longe dali, os Urubus do eixo EUA-EUR espreitando as carniças dinossáuricas que meu tempo escolheu chamar de “ouro negro” – falo do petróleo.
Evo Morales, muito distante da Tunísia, e mais perto do meu coração, tornou-se também o meu herói. Mostrou-me que os grandes teóricos da Democracia, arautos do Welfare State estão professando verdades que se tornaram, como eles mesmos gostam de dizer, démodé. Falácias retóricas que não convencem as multidões oprimidas do que era considerado o Sul, e hoje é colocado no Norte. Evo, um indígena, um artista, um verdadeiro Estadista, veio à cena, sem personagens, trabalhar um novo papel: vestir cocar e ocupar os espaços do possível. Era um atentado contra o velho teatro, pois era uma atuação mais viva, era original porque retomava o que era ancestral. Uma atuação toda ela colorida, mística e saborosa, capaz de desestruturar o velho teatro em branco-e-preto.
Quem diria, há dez anos, que os Estadistas que nos ensinam a verdadeira Democracia, revitalizada, potencializada, não vieram da Europa, não são gregos, franceses ou alemães, não são nem mesmo da grande potência rica dos Estados Unidos da América, tampouco da grande ilha tecnológica que chamam Japão. Quem diria, um indígena, uma história sofrida, amputada, aniquilada, abortada, amordaçada, estuprada, esquecida, arrefecida, desarticulada, tutelada, disputada, vendida, humilhada, usurpada, desmistificada no pior valor que essa palavra pode carregar – quem diria, um indígena, veio à cena, com seu cocar colorido, dar-nos a maior lição de política, que faria A República de Platão virar um penico.
Qual é a grande lição legada pelo representante da história esquecida, falada e não-escrita, vivida como ensaio artístico-antropológico? Em minha mundanidade, interpreto a lição da seguinte maneira: a ideia de eu só adquire sentido se inserida na ideia do todos-nós. E todos, como nós, que se entralaçam, e que por vezes se bloqueiam, mas vão se organizando e estruturando gradualmente, humanos que somos, em união integradora com o ser natural, em contato uno e indivisível com a Mãe Terra. Que nós, dessa terra linda chamada América Latina, preferimos chamar de Pachamama[4].
Ser eu é sermos nós-naturais. Somos entrelaçamentos cósmicos numa unidade divina que nos integra em nossa peculiaridade enquanto espécimes humanas, únicas e singulares, diversificadas como insetos, integradas em um todo vivo e pulsante, uma teia radiofônica de criação artística, a rede de uma estrutura que, só de pensar, me faz regozijar ao repetir: Pachamama, Pachamama, Pachamama. Privilégio nosso, que queremos dividir com vocês. É o novo pacto, sem ressentimentos com o passado. Queremos compartilhar do nosso melhor com vocês, que são o que tem de pior. O que acham do trato?
Esta é a época em que vivo. Quereria pintá-la num retrato. É a época em que o ser humano afirma-se em sua plenitude. É a juventude do ser humano. Então, peço licença se preciso for, mas não me venham com estas conformações arbitrárias e universalizantes, unificantes em reificação autofágica, elocubrações da masturbação do ego, individualismos comesinhos, incompreensões e abismos. Não me venham com abismos, com a burocracia, com os papeis, com os dez cargos hierárquicos desta estrutura formal estúpida. Não me venham com subterfúgios, avaliações morais, comparações ridículas. Tratamos aqui de um tesouro, chama-se humano, gestou por milênios no berço da terra e só nasceu há poucos séculos. O ser humano é jovem, está adquirindo energia e enriquecendo-se na respiração fundamental de tudo aquilo que não o é. Tenha cuidado.
Fora deste apocalipse mercadológico, eis aí, afirmando-se, insurgindo-se, pairando em horizontes límpidos, no arrebol que escancara e desoculta, emergentes, desobedientes, irreverentes, evidentemente latentes, latinos, calientes, não falados, calados em mordaças, olha aí, que coisa linda, eis a alteridade da natureza humana. Descobrimos o tesouro bem antes de vocês. Ele não é amarelo e não brilha. Não é especificamente viscoso e preto. Não falo deste ouro.
Falo do ouro verdadeiro, o ouro que incendeia nossos sentidos, a aproximação do branco e do negro, o calor do afeto, a gestação da mistura, a geração da miscigenação, a concepção do mulato, a afirmação identitária do que é o outro, em sua lindeza, sua peculiaridade antes-muda, agora-falada, é o sabor do gozo. A compatibilização dos povos, os pretensos acordos, não, não foram eles, foi esta gana louca e pavorosa, erótica e estética, pelo que compactuamos chamar de diferença. Foi isto o que nos atraiu e o que nos misturou. Iremos lá no outro, irremediavelmente, buscar nossa própria identidade. O ser do humano. Eis a proposição da ontologia latino-americana, tão saborosa porque soube misturar os ingredientes da diversidade.
O sentido aponta para essa capacidade de abertura ao outro. Buscamos a nossa essência na contingência dos relacionares. As relações humanas, as relações dos humanos com a natureza, a relação dos humanos com seus agrupamentos ideológicos, afetivos, as relações de interdependência entre linguagens previamente compactuadas – parece claro que só podemos ser nós, parece claro que só posso ser eu sendo todos vocês. Não há autores por trás dos escritos, como não há deuses por trás dos mitos. Estas metafísicas[5] que viraram costumes são mentirosas. Somos apenas compartilhamentos. Esta nossa constatação obtusa prima pela conscientização sedutora do outro. É nossa resolução erótica da vossa estética morta.
Este é o produto das moções psíquicas sofridas aqui, coletivamente, passando frio e ficando quente com essa gente, esse povo valente, acúmulos gerados por convenções que são nossas. De todos nós. É só olhar adiante. Isto, aí. Estão aí, foram organizadas por algum clown de Shakespeare. Aquele clown inexperiente, residente na morada espraiada de todos nós. Nós entrelaçados.
REFERÊNCIAS
DORT, Bernard. O teatro e sua realidade. Trad. Fernando Peixoto. São Paulo: Perspectiva, 1977. (Coleção Debates).
FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. 22. ed. Org. e trad. Roberto Machado. Rio de Janeiro: Edições Graal, 2006.
______. Vigiar e punir: nascimento da prisão. 32. ed. Trad. Raquel Ramalhete. Petrópolis: Vozes, 1997.
HAWKING, Stephen. O universo numa casca de noz. Trad. Ivo Korytowski. São Paulo: Mandarim, 2001.
HEIDEGGER, Martin. El Ser y el Tiempo. 7. ed. Trad. de J. Gaos. México/Madrid/Buenos Aires: F. Cultura Economica, 1989.
KANT, Immanuel. A metafísica dos costumes. Trad. Edson Bini. São Paulo: Edipro, 2003.
KUNDERA, Milan. A insustentável leveza do ser. 56. ed. Trad. Tereza B. Carvalho da Fonseca. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.
NIETZSCHE, Friedrich. Para a genealogia da moral: Uma polêmica. trad. notas posfácio Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.
PLATÃO. A República. Bauru: Edipro, 1994.
SARTRE, Jean-Paul. O existencialismo é um humanismo. In: Os Pensadores. Vol. XLV. São Paulo: Abril Cultural, 1996.
______. O ser e o nada. Petrópolis: Vozes, 1997.
SOUZA, Hamilton Octavio de. O bloqueio conservador no Congresso Nacional. In: Caros Amigos Especial, ano XIV, n. 49. São Paulo: Casa Amarela, 2010.
STANISLAVSKI, Constantin. A preparação do ator. Trad. Pontes de Paula Lima. 22. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006.
[1]“ Concomitantemente” deve ser entendido, aqui, como aquilo que se processa de maneira conjunta, em interferência recíproca. O processamento em concomitância anula as ideias de autonomia e independência como referenciais cognitivos dos seres. A ontologia que se visa formular, aqui, não é autossuficiente, mas justamente interdependente.
[2] Se olharmos da frente para trás, veremos que, atualmente, estamos experimentando uma das fases mais conturbadas do Capitalismo, sinalizando sua debilidade enquanto sistema totalizante e, além disso, sua falibilidade em vetor homogeneizante de culturas. No passado mais recente, as ditaduras ostensivas, as políticas totalitaristas e autoritárias vêm, gradativamente, sendo sobrepujadas pelas reformulações do que os povos entendem por Democracia. Se olharmos mais atrás, veremos a queda dos monarcas absolutistas. Mais adiante, em retorno, veremos a queda dos senhores feudais. Atrás disso, a queda dos grandes impérios, sobretudo o Império Romano. Todas as tentativas universalizantes, unificantes, potencialmente homogeneizantes fracassaram. Não é preciso que se faça ciência para comprovar tal evidência.
[3] HAWKING, Stephen. O universo numa casca de noz. Trad. Ivo Korytowski. São Paulo: Mandarim, 2001.
[4] Do quíchua Pacha, "universo", "mundo", "tempo", "lugar", e Mama, "mãe", significando um conceito integrador de tempo, espaço, e interação entre seres vivos, num entrelaçamento cósmico, místico e, por que não, poético, quando dizemos "Mãe Terra”.
[5] KANT, Immanuel. A metafísica dos costumes. Trad. Edson Bini. São Paulo: Edipro, 2003.
terça-feira, 22 de fevereiro de 2011
Idiossincrasias de acaso, não por acaso

IDIOSSINCRASIAS DE ACASO, NÃO POR ACASO
Não por acaso, as idiossincrasias perfazem a natureza humana. A forma como reagimos aos mais diversos estímulos explica, em grande parte, a essência que pode estar conosco em dado momento. Mas cuidado: a essência é também uma idiossincrasia. A essência dos humanos, assim como os próprios humanos, transita. Mudamos de essência assim como mudamos de roupas. Isso não é bom ou ruim, estamos apenas assumindo o papel social mundano que uma sociedade doente está a nos exigir. Mudam a demanda, e logo tratamos de mudar a máscara.
Acho ridículo o fato de algumas questões políticas relevantes assumirem, sem muito esforço coletivo, contornos burlescos. É da natureza histórico-política brasileira o burlesco. Discutir um problema de forma burlesca. Agir de maneira burlesca. Negociar burlescamente. Nossa vivência política é a vivência de um teatro, na qual os atores assumem papéis de momento (indicando aí a plenitude da fisiologia). Nossos políticos, não Aqueles, mas todo e qualquer cidadão brasileiro assumiram que veem vantagem na hipocrisia sustentada. O teatro da política brasileira, já há algum tempo, vem assumindo a forma de um circo. Pinte-se de palhaço e adquira sua fantasia: o teatro, que se tornou circo, passa a ser a encenação de uma farsa corruptora.
Vestiu sua fantasia? Então podemos debater o ridículo da questão.
A comunidade unespiana, a comunidade francana e a sociedade brasileira como um todo possuem os seus problemas contumazes e próprios. Debater estes problemas é de crucial importância. Mas é importante também que escolhamos a forma como decidimos debater um problema. Podemos debater um problema numa assembléia ou num palco de teatro, diante de uma platéia. Podemos debater um problema sozinhos diante de um espelho, ou unidos em um coletivo unificado. A importância crucial da forma como escolhemos debater um problema de crucial importância reside tão somente na efetividade que pretendemos. É claro que toda discussão possui a sua finalidade. E esta finalidade pode, ou não, ser atingida. É uma questão de efetividade.
No teatro grego, a peça representava, como espelho imediato, as vicissitudes da cidade grega. O teatro era, e ainda é, uma forma de conscientização política por excelência. No palco, os atores descarregam a platéia de seus problemas sociais ao mesmo tempo que lhes revela qual sua verdadeira condição ou posição na sociedade. Um encenador francês chamado Bernard Dort explica que
“Num teatro de tipo aristotélico, palco e platéia são o espelho um do outro. O palco reflete a platéia; a platéia reflete o palco. O que se está representando no palco é a própria história dos que estão do outro lado da ribalta. A ação da obra, sua fábula, é a própria verdade de seus espectadores e o palco, literalmente, liberta a platéia da preocupação de sua história. Daí a catarse.”
Não sei se o povo brasileiro escolheu ter sua história representada num palco de teatro, onde uma farsa é encenada e sustentada há muito tempo. Não sei bem se o Congresso Nacional (o teatro da representação que se tornou o circo de uma farsa corruptora) foi uma escolha deliberada de nosso povo. De nós. Mas uma coisa é certa: o teatro representado no Congresso Nacional é o teatro que nos representa. Se não o escolhemos, ao mesmo tempo, não o negamos. E ele continua lá, cheio de palhaços. Uns até vestem fantasias. E outros, mais poderosos, já desistiram delas.
Tal qual no Congresso Nacional, inúmeras vezes assistimos na política a construção de palcos. Necessita-se palco e platéia para as deliberações políticas cruciais. Aqui e ali, circos são montados e são desfeitos, sem análises prévias ou relatórios ulteriores. Monta-se o palco, sustenta-se uma farsa, atinge-se uma finalidade efetivamente e o resto que se foda.
O palco da "elite intelectual brasileira", as universidades, seja (re)pública(das) ou privada, segue a mesma lógica. Às vezes precisamos assumir papel de palhaço, num palco e diante de uma platéia, para realizarmos conscientização política. Outras vezes, a consciência política está ali, embora não queiramos aceitar. Está ali, é uma consciência política podre, asquerosa, fétida, nauseabunda, inócua, imbecil e arrogante, mas não deixa de ser consciência política. Nós, daqui, não aceitamos de imediato porque achamos que consciência política é sempre algo positivo, que gera bons frutos na construção de uma sociedade mais madura e saudável. Nós daqui somos a exceção: a regra é a consciência política consciente e controladora, aproveitadora, hipócrita e fisiológica. Traidora. E para os que são daqui: aprendam a lidar com mais esta idiossincrasia.
O lugar que escolhi chamar de casa está em tempos de revolução cultural. Chama-se Unesp Franca, e é um sítio de diversidade. Neste sítio, alguns resolveram levar ao povo, à platéia, algumas questões relevantes. E isto é histórico aqui. A luta aqui é histórica. A luta, a conscientização, o debate marcam de maneira linda e delicada a consciência de jovens sonhadores que, sem alternativa, ou como alternativa, lutam.
Outros jovens, no entanto, preferem ser os palhaços de sua própria piada sem graça. E chamaram isso de democracia: montam um espaço congênere, cheio de gente das mais diversas classes sociais, econômicas e culturais (mas todos unespianos. Idênticos?). Depois que montam este espaço, dividem o espaço entre palco e platéia. Quem sobe ao palco sustenta sua farsa. Dá seus motivos e suas argumentações, opinando favoravelmente ou desfavoravelmente a um problema de crucial importância: uma festa. Chamaram isso de democracia: abriu-se a votação para que a platéia, ou o povo unespiano, escolhesse ter ou não ter sua festa. A escolha foi feita.
Chamaram isso de democracia: oprimir, mais uma vez, o grito do oprimido. E a questão política relevante, que subjaz a esta discussão? Morreu. A forma que o teatro assumiu substituiu o seu conteúdo. O mais importante não mais é a questão da homofobia na Unesp Franca, mas saber se vamos ou não vamos ficar bêbados em mais uma festinha que representará, mais uma vez, a acomodação de uma classe já acomodada pelos seus privilégios históricos.
Deixem-me dizer-lhes o que entendo por democracia. Deixem-me dar a minha vaga impressão do que tenho notado ser democracia. Vejo a democracia como um palco da pluralidade política onde os espaços são postos para que as pessoas se degladiem sem, contudo, aniquilarem-se. Lembra dos gladiadores romanos? Corrompidos, machucados, sangrando, ferindo uns aos outros, realizando seus conchavos, e ainda assim, vivos? A democracia é isso: é tão plural que permite a convivência da idéia de liberdade ao corpo ensanguentado que a sustentou.
Vivemos nessa democracia. E vivendo nela, posso afirmar algumas coisas sobre elementos que circulam pela comunidade unespiana. Há, na comunidade unespiana:
a) elementos homofóbicos e machistas. E mais ainda: há mulheres machistas que se vestem de feministas e homens homofóbicos que são também homossexuais. Talvez, pessoas que não se suportam consigo mesmas e precisam montar um boneco ou uma personagem para apresentarem a esta sociedade podre de valores. É o papel delas, dentro do nosso teatro;
b) elementos de perseguição a homossexuais, talvez não explícitos, que facilitem a minha percepção, a sua ou a alheia. Mas lembremos que o Brasil vive um período político no qual velhos e novos valores convivem num espaço pequeno. E, cá ente nós, porque você não fica sabendo explícita e diariamente, não acredita que há linchamentos, espancamentos, torturas psicológicas, torturas afetivas em qualquer espaço deste país, obscuramente, nos bastidores do que acreditamos ser real - ainda que seja na Unesp Franca?! Acreditam realmente nisso? Olhares maliciosos e conversas profanas, fofocas, não constituem perseguição pra você?
É por isso que afirmo, sem medo: é necessário realizar um debate sobre o "problema sócio-ético-cultural" acerca da opressão ao homossexualismo em nossa comunidade unespiana. MAS NÃO TOMANDO COMO MOTE UMA FESTA IMBECIL COMO É O MISS BIXO! QUE PORRA É ESSA?
Hoje está havendo uma disputa política no seio do corpo discente. O que está em disputa? Está em disputa a confirmação de um valor social, porque trata da inclusão e exclusão das pessoas. Está em disputa, ainda, uma questão moral e ética de impor uma cultura hegemonicamente por cima da outra; e, por fim, a disputa de uma questão juridica, afinal esse problema atinge, antes da dignidade humana do humano livre, a liberdade de um humano preso.
Essa questão atinge a liberdade de um ser humano considerado indigno por uma cultura corrupta e corruptora de se excluir os grupos mais fracos para sugar-lhes as qualidades que possuem, tão somente para que o grupo no comando mantenha e sustente seu poder operante. E são os vassalos deste poder operante da política liberal-burguesa que vomitam um monte de institutos jurídicos falidos para defender a salvaguarda de uma questão que necessita ser escancarada. Este juridiquês burocrático dos tribunais apenas anula, ou afasta temporariamente, a questão da condição humana, mais em jogo do que a parafernália e os brinquedos do mundo hipócrita do direito. De um direito que é a encenação de uma farsa num palco, para determinada platéia.
Independentemente de tudo isso, é preciso que sejamos cautelosos e afetivos. Não julguemos nem calculemos o tempo que as pessoas possam, eventualmente, demorar para tomarem consciência de seus dramas. Nossos piores medos são tão presentes e imediatos que preferimos negá-los do que enfrentá-los. Sabe por quê? Por medo. E isto é também uma questão jurídica, porque um ser humano com medo é um ser humano anulado, indigno e impotente.
terça-feira, 21 de setembro de 2010
Para que não nos culpemos por nossa fragilidade

Gostaria de conversar com alguém
Embora ainda não conheça esta pessoa.
Se pudesse, sairia pelos cantos do mundo
Assobiando a ironia que há nas palavras que já foram ditas.
A verdade está contida nas palavras impensadas.
No caminho que passo encontro um asco.
No maço do cigarro do cigano,
Que fuma e medita e pensa assim.
E então me vem um calafrio de despedida
Me toca e me desperta da agonia
Do adeus inesperado e já aceito.
Do nosso jeito, pro nosso peito
Pra que sejamos mais que a palavra morta "humano".
Você vem com a sua normalidade e o seu convencionalismo
E me diz que conseguiu ser apenas e exclusivamente do seu jeito
Com personalidade, com autenticidade, com maturidade;
Mas o que não percebe é (o) que O Sistema se dissolveu no seu corpo.
A sua mente absorveu uma verdade que não é a sua,
E nos seus meandros, nas suas escolhas, nas suas atitudes
- E principalmente nos seus preconceitos -
Você acabou de reproduzir a mesquinharia Deles.
Eu me sinto mal. Eu não consigo me assumir enquanto personalidade.
Náusea, nojo, incômodo, impotência
E a incapacidade de retirar sensações ruins do corpo através de lágrimas e vômitos.
Sete bilhões de dentes podres na boca do capitalismo,
Duas cicatrizes e mais cinco mil anos de velhice em seu rosto sorridente.
Me diz quantas bombas precisam explodir por causa do lucro.
quinta-feira, 12 de agosto de 2010
Eu sou latino-tupiniquim
A realidade brasileira está emporcalhada.
Temos o melhor presidente de todos os tempos
E temos também a certeza de que nada mudou.
Nenhuma das principais peças do tabuleiro foi mexida.
"O Cara" veio do povo, articulou a força por baixo,
Sofreu o martírio da pobreza seca e rachada,
Representou seus semelhantes,
Foi o objeto das maiores expectativas,
Tornou-se, irrefutavelmente, o emblema de seu partido,
Obteu os melhores índices estatísticos,
Os mais refinados elogios,
Prêmios variados e variáveis,
Refundou a política brasileira,
E meu país, amigo, continua uma merda.
Eu me lembro, mesmo sem ter visto,
Que faz mais de quinhentos anos
Que um grupinho desgraçado
Suga as riquezas naturais,
Esfola os humanos sociais,
Aniquila todo potencial criativo existente
Desmanchando a moral e a consciência,
Usurpando, parasitando, cagando em tudo!
E rindo a risada gorda e cômoda daquele que ocupa a poltrona da hipocrisia.
Nem "O Cara" conseguiu fazer alguma coisa...
Na verdade, "O Cara" fez o jogo dos caras...
E agora, o que nos restou?
No que vamos acreditar?
No movimento, na militância, nesse esforço coletivo,
Na ciência, no trabalho do partido,
Em alguma religião, alguma organização política,
Numa instituição talvez, um ordenamento normativo,
Numa carta política, numa relação de produção,
Num método pra interpretar a realidade e tentar transformá-la,
Nas drogas, no sexo, em video-game, no bacon com catupiry,
Nas banalidades e superficialidades,
Na morte, em Jesus, em Buda, Gandhi,
Chico Xavier, Copa do Mundo, Galvão Bueno,
No Amor, na piedade, na moral, na educação, na pedagogia,
Na conscientização política pelo esporte,
No trabalho de base, na caridade, na sociedade,
No bom selvagem, em Deus, no Caos,
Depois de tudo que aconteceu e ainda acontece, no que podemos acreditar?!
sábado, 17 de julho de 2010
Clarice Lispector sem fronteiras...
Já escondi um AMOR com medo de perdê-lo, já perdi um AMOR por escondê-lo.
Já segurei nas mãos de alguém por medo, já tive tanto medo, ao ponto de nem sentir minhas mãos.
Já expulsei pessoas que amava de minha vida, já me arrependi por isso.
Já passei noites chorando até pegar no sono, já fui dormir tão feliz, ao ponto de nem conseguir fechar os olhos.
Já acreditei em amores perfeitos, já descobri que eles não existem.
Já amei pessoas que me decepcionaram, já decepcionei pessoas que me amaram.
Já passei horas na frente do espelho tentando descobrir quem sou, já tive tanta certeza de mim, ao ponto de querer sumir.
Já menti e me arrependi depois, já falei a verdade e também me arrependi.
Já fingi não dar importância às pessoas que amava, para mais tarde chorar quieta em meu canto.
Já sorri chorando lágrimas de tristeza, já chorei de tanto rir.
Já acreditei em pessoas que não valiam a pena, já deixei de acreditar nas que realmente valiam.
Já tive crises de riso quando não podia.
Já quebrei pratos, copos e vasos, de raiva.
Já senti muita falta de alguém, mas nunca lhe disse.
Já gritei quando deveria calar, já calei quando deveria gritar.
Muitas vezes deixei de falar o que penso para agradar uns, outras vezes falei o que não pensava para magoar outros.
Já fingi ser o que não sou para agradar uns, já fingi ser o que não sou para desagradar outros.
Já contei piadas e mais piadas sem graça, apenas para ver um amigo feliz.
Já inventei histórias com final feliz para dar esperança a quem precisava.
Já sonhei demais, ao ponto de confundir com a realidade... Já tive medo do escuro, hoje no escuro "me acho, me agacho, fico ali".
Já cai inúmeras vezes achando que não iria me reerguer, já me reergui inúmeras vezes achando que não cairia mais.
Já liguei para quem não queria apenas para não ligar para quem realmente queria.
Já corri atrás de um carro, por ele levar embora, quem eu amava.
Já chamei pela mamãe no meio da noite fugindo de um pesadelo. Mas ela não apareceu e foi um pesadelo maior ainda.
Já chamei pessoas próximas de "amigo" e descobri que não eram... Algumas pessoas nunca precisei chamar de nada e sempre foram e serão especiais para mim.
Não me dêem fórmulas certas, porque eu não espero acertar sempre.
Não me mostre o que esperam de mim, porque vou seguir meu coração!
Não me façam ser o que não sou, não me convidem a ser igual, porque sinceramente sou diferente!
Não sei amar pela metade, não sei viver de mentiras, não sei voar com os pés no chão.
Sou sempre eu mesma, mas com certeza não serei a mesma pra SEMPRE!
Gosto dos venenos mais lentos, das bebidas mais amargas, das drogas mais poderosas, das idéias mais insanas, dos pensamentos mais complexos, dos sentimentos mais fortes.
Tenho um apetite voraz e os delírios mais loucos.
Você pode até me empurrar de um penhasco q eu vou dizer:
- E daí? EU ADORO VOAR!
Clarice Lispector
quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010
O desejo é privado, enquanto que o interesse é público.
Goethe dizia que a obra de arte poderia desencadear efeitos morais nos seres humanos, mas que exigir uma finalidade moral por parte do artista seria induzi-lo a arruinar a sua própria obra. Penso que com a ciência ocorre exatamente o inverso: a ciência pode não desencadear efeitos morais por sobre nossas vidas, mas exigir uma finalidade moral por parte do cientista é nossa obrigação. Mais que direito, é nosso dever cobrar do cientista esclarecimentos acerca de quais tipos de moral a sua ciência é capaz de engendrar. No mínimo, qual moral ele mesmo pretende engendrar por meio da forja que é a sua ciência.
Nenhuma ciência é despropositada e, por mais que se tente, amoral. Toda produção científica é movida por desejos e interesses. Os desejos são anseios voltados para a esfera da nossa individualidade, enquanto que os interesses são anseios que podem transcender nossa personalidade, e ganharem conotação político-corporativista.
Isso porque é possível exercer um desejo de maneira unilateral. Sozinho, posso concretizar meus desejos básicos, transformando assim a sensação metafísica de necessidade em matéria. Mas meus interesses sempre são motivados e forjados por relações em sociedade. No mais das vezes, os interesses são artifícios criados pelo sistema que acabam por nos introjetar uma necessidade desnecessária, fazendo-nos crer veementemente que sua realização fática nos trará benefícios.
Freud define o desejo como uma moção psíquica que procura restabelecer a situação da primeira satisfação. Assim, o desejo é a vontade de repor a coisa almejada em um espaço-tempo constante, donde pudéssemos compartilhar de seus benefícios num contato direto entre sujeito cognoscente e objeto cognoscível. Ocorre que o desejo é factual, na medida em que o sujeito já tivera, efetivamente, contato com aquilo que almeja. O desejo não é racional, mas instintivo. Afinal, o busca pelo prazer, tanto físico como metafísico, é um imperativo vital.
Ao contrário, o interesse é viabilizado por nossas relações em sociedade, que nos fazem acreditar na existência de fatos e objetos que, em realidade, são essencialmente falsos, meros factóides e meras ficções. O sistema nos indica a exata medida e dimensão dos nossos desejos, de nossos sonhos, até mesmo daqueles anseios aparentemente mais íntimos.
E embora seja a ilusão aquela que nos motiva ter interesses e senti-los como necessidade – pelo fato de nossos desejos terem fundamento no mentiroso mundo dos prazeres, criado artificiosamente pelo paradigma cultural que o sistema propicia –, nossa necessidade se nos apresenta real, apta a ser sentida. Essa necessidade, que nos é alheia, se torna nossa porque se demonstra sensível.
Disso decorre que o interesse não é instintivo, porque nunca se teve um contato a priori entre o sujeito e o objeto, o que constituiria a relação primordial que o desejo contém. O interesse é racional porque é movido por raciocínios aparentemente lógicos que nossa mente despende ao situar e precisar os beneméritos que certas ficções e certos factóides são capazes de nos gerar.
A ciência é movida por desejos pessoais e interesses sociais. O desejo é privado, enquanto que o interesse é público. Pode parecer ironia aproximar orações que são aparentemente tão discrepantes, mas a distinção acima é necessária para que se afirme que a moral forjada pela ciência foi construída a partir de desejos – cuja motivação tem cunho pessoal – e por interesses – morais, econômicos, sócio-políticos. Todo Direito que é ciência, portanto, segue esta regra.
domingo, 8 de novembro de 2009
O apego à forma em nosso tempo...
No mesmo sentido, o próprio legislador comete um ato falho quando permite que se tramitem leis cujo conteúdo versa mais sobre solenidades do que sobre procedimentos efetivos para a disputa e conquista de direitos. Nesse interregno, a academia acaba por afastar do estudo científico do direito a filosofia, a sociologia e a política. Isso porque os próprios professores encontram-se viciados com a formalidade dogmática de nossa legislação, lecionando sem elasticidade e interdisciplinaridade.
Os ensino jurídico de nossas academias não ensina a pensar e articular as leis de forma criativa; ao contrário, apenas apresenta uma rede de normas contidas em artigos que, quando muito, se combinam e formam cadeias processuais que devem ser usadas na prática forense.
No entanto, nem todo ordenamento jurídico se mostra rígido e imutável. A Lei n. 9.099/95, que instituiu os Juizados Especiais Cíveis e Criminais, quebrou com o paradigma formal dos processos civil e penal ao tornar imprescindível a utilização da oralidade, visando uma maior celeridade nos trâmites processuais, de modo a tornar a prestação da tutela jurisdicional do Estado mais efetiva e segura.
Assim devem agir os professores das academias que pretendem ensinar o direito: com liberdade, audácia e informalismo. De uma maneira que, ao mesmo tempo que se aproxima da intimidade intelectual dos alunos, não deixa de ser científica, fomentando idéias mais criativas para o manejo de nossas leis.
quinta-feira, 16 de julho de 2009
O Brasil e a manobra de massas
= Leia "A pizzaria federal" de Luciano Martins Costa no Observatório da Imprensa. =
O Lula imortalizou seus 8 anos de governo com uma simples e singela frase: "todos eles [senadores] são um bando de pizzaiolos".
Jura que não escutou? Puts, baixa daqui então.
Bom, se no Senado, uma das casas do Poder Legislativo, tudo acaba em pizza, é natural que haja pizzaiolos.
E muitos, pois a doutrina da pizza impera: todos os jantares são pizza e conversas sobre novas políticas de controle e manobra de massas.
Manobrar massas.
Não fiquem surpresos se, nesse clima de xingamentos eufêmicos, o STF emita uma nota dizendo que se no senado todos são um bando de pizzaiolos, seria lógico dizer que no executivo todos são um bando de padeiros.
No executivo só tem padeiro porque tudo acaba em sonho.
Mas tranquilo, não tem problema. É só uma má fase.
Os padeiros e pizzaiolos discutem, trocam desaforos. Mas no fim das contas, tudo acaba em manobra de massas...
Padarias, pizzarias... Por que não resumimos o Estado a uma Panificadora logo duma vez?!
Sonho e pizza, pelo menos sem burocracia.
E lembre-se: #twitterconsciente
domingo, 8 de junho de 2008
Sexo. Uma pretensão em demasia.
Uma contemplação sem hipocrisia.
Um tudo, um quase-além.
Pode ser sim, pode ser não.
Pode haver capricho, pode haver fetiche.
Um tilintar corporal. Um assopro lunar.
Cochicho de três deuses bêbados.
Ou, mais que isso, vinte e duas flores em desabrochar.
Um cair, ah, ali, acolá!
De lado, montado, inacabado, o sexo.
Que afoga e te beija, te esquece e te almeja;
Te engole, digere, cospe e quer mais. O Sexo.
Quem sabe o que vem depois?
Um ali, detrás, pra frente, joga, é quente!
Sai daqui, arranha, dói, é bom, quer mais.
Uma explosão. Talvez seja algodão.
Nós dois, nós três, uma festa, todos olhando.
Carro, parede, pia, privada, chuveiro, hidro.
Uma piscina. Um orgasmo. O sexo. Um espasmo.
Pode ser até que um dia, agora, o ontem morra.
Tempo é mentira. Espírito é mentira.
Não há ontem, amanhã nem depois.
Não há verdades, mentiras, conceitos nem teorias.
Equações mitológicas, não. Corpo.
Corpo. Tato. O corpato.
Esse arranhar atmosférico e incansável,
O sexo como miragem lustro-vinil,
Varonil, viril, mente esquecida. Ah, o sexo!
Perda, ganância, raiva, egoísmo,
Tudo, nada, nós dois envolvidos.
O que é meu vira seu, o seu não é teu;
O sexo que constrói e desacaba, uma festa, uma fada.
O excesso de membros, a canseira, a fadiga.
Mais. Mais. Mais. Mais. Mais. Mais. Mais.
Força. Sem limite. Ilimitado, vomitado, nascido, contraído.
O sexo preso, o sexo que foge, o sexo-metamorfose.
Nosso prazer, delícia, volúpia, agrado, afeto.
Com sentimento. Com desprezo. Com pena. Com dor. Com calor.
Cobertos, despidos, meninos, meninas, homens, mulheres.
Mulatos, índias, espanhóis, italianos, japonesas.
Animal. Eu, você, carnal. Sexo. Que arrebata. Que mata.
Eu quero um sexo bem feito, dançado.
Eu quero o orgasmo máximo, a integração com o início.
Eu quero você, te morder, te beijar, te ser, te machucar.
S.E.X.O.
Síndrome do Êxtase com Xenofonia Oculta.
O sussurro, o urro, o desacreditar das palavras.
Puta. Cavalo. Gostosa. Safado.
Uma vontade imensa de falar palavrão.
Esse menino escondido que queria voar.
Essa possibilidade única de ser o mar.
O sexo sentido na pele muda.
O sexo que morre e renasce como nunca.
Não quero parar.
Não quero te largar.
O sexo. Até ficar sem ar.
segunda-feira, 5 de maio de 2008
E o modo como você acha que enxerga o mundo?
Foda-se o título
Quem me vê sorrindo
Acha que tenho alergia à tristeza.
Mas o sorriso é só uma cordialidade.
Felicidade é inevitabilidade.
Esse estado de alma por trás de todas as patentes poéticas
Só serve de disfarce para a vida.
A poesia que se descobre é a mesma que mentia;
A poesia que se esconde é aquela esquecida.
Vida de chocolate é lábio sujo de marrom
E bombom pra todos os seres humanos como garantia fundamental.
Se sujar constrói a beleza da limpeza.
Enquanto a guerra constrói a obsessão pela paz que não existe.
Pacifique-se e dê-se por feliz.
A paz do outro é o toque da sua paz.
Não é uma questão de fazer coisas boas e deixar de fazer as ruins.
O melhor caminho, na verdade, é procurar não olhar somente pro próprio umbigo.
Olhe pra fora pra depois olhar pra dentro.
Ninguém merece ser mártir de uma causa sem vida.
Ninguém precisa ser.
O que determina você ter nascido aqui
E ter roupa lavada;
Comida na mesa;
Dinheiro pra balada;
Computador com banda larga;
Pai, mãe, tia com casa na praia;
Estudo, entretenimento e oportunidades;
Chance;
Acesso?
E ele ter nascido lá
E não ter o que vestir;
Viver sob um sol de muitos graus e um frio sem nenhum grau;
Num lugar em que a terra é seca;
Não conhecer a mãe e conhecer o pai até ele tomar um tiro;
Não saber o que é balada, computador, silvio santos, trance,
Rave, sorvete de pistache, carne de rã e camarão;
Não ter tido uma oportunidade, nem uma chance, nenhum acesso;
Entretenimento? (Vamos começar a rir a partir daqui...)
É a sorte?
É Deus?
São as leis de probabilidade da matemática, da física, da química, da biologia?
São as leis que regem o universo e a natureza?
São as leis budistas e hindus de vidas passadas?
É culpa sua?
É culpa dele?
É culpa minha?
É culpa de todo mundo?
Há culpa?
Há controle?
Mas ele não pediu pra nascer.
Nem você pediu pra nascer.
Eu também não pedi pra nascer.
Só que você vai pra balada e joga poker,
Enche a cara todo final de semana,
Gasta cem reais por mês pra bater punheta assistindo sexy hot.
E quando enjoa, paga uma puta.
Eu faço poesia.
Debaixo de um teto. Com ventilador. Com estômago cheio.
Pelado na maioria das vezes, mas com roupa se precisar.
E ele acha que viver é uma luta constante contra si e contra os outros.
Uma luta contra a resistência própria, física e psicológica
E uma luta social, cultural, religiosa, jurídica, econômica...
Escolha a porra da ciência que você quiser.
Todas tentam explicar e nenhuma consegue.
Todas querem justificar, querem tentar equilibrar.
Feche os olhos e agradeça e lamente.
Não haverá explicação para certas coisas que acontecem no mundo.
Só se lembre de não olhar pro umbigo.
Machuca a nuca uruca. E a nuca é o centro de nossas possibilidades.
terça-feira, 15 de abril de 2008
Meu vizinho jogou uma semente no seu quintal...
Baseado nas palavras
O Casamento.
Baseado no sentimento.
Baseado na comunhão.
Baseado na cerimônia.
Baseado na religião.
O Catolicismo.
Baseado no perdão.
Baseado em Jesus.
Baseado na oração.
Baseado no batismo.
Baseado na Bíblia.
Baseado no padre.
Baseado na missa.
O Direito.
Baseado na história.
Baseado nos fatos sociais.
Baseado na lei.
Baseado na jurisprudência.
Baseado na doutrina.
Baseado nos costumes.
Baseado na cabeça de quem faz o Direito.
O Estado.
Baseado na geografia.
Baseado na nação.
Baseado na sociedade.
Baseado no governo.
Baseado na cultura.
Baseado na administração.
Baseado na organização.
Baseado no controle.
Baseado na delimitação.
Se tem baseado em tudo
Não entendo porque não é legalizado.
Legalizem o baseado baseado em fatos reais.
Malone
PS: Malone é formado em Letras, atualmente cursando Direito e maconheiro há 10 anos.
PS2: Viva a Gilberto Gil, ministro da cultura e destruidor de paradigmas.
