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quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Entre filósofos e encenadores




Em nossa arte é preciso viver o papel a cada instante que o representamos e em todas as vezes. Cada vez que é recriado tem de ser vivido de novo e de novo encarnado.”

STANISLAVSKI, Constantin. A preparação do ator. Trad. Pontes de Paula Lima. 22. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006. p. 47.

- Será que Stanislavski, com esta passagem, acabou por reformular os pensamentos de Nietzsche sobre o eterno-retorno e a vontade de potência que deriva dele? Nietzsche teve a ousadia de pensar que o tempo presente, o momento do instante-já, conquanto em movimento constante, retornará. E o presente momento, com todo o arcabouço de possibilidades que carrega consigo, retornará eternamente. Esta lição significa que sempre teremos em mãos a possibilidade de recriar o mundo a nossa volta. A esta capacidade humana Nietzsche deu o nome de vontade de potência.

Stanislavski, por sua vez, quis captar a mesma fugacidade potencializadora que perfaz o humano e retransmiti-la, artisticamente, no palco – diante de uma platéia. Ambos os autores traçaram caminhos de conscientização política pela própria postura autônoma e independente de afirmar-se uma idéia mediante uma ação, uma conduta, uma atitude também criadora, e portanto inovadora.

O primeiro quis nos afirmá-la por meio de uma filosofia universalizadora, que uniria em uma entidade única o cósmico e o mundano. Seria uma filosofia tão avassaladora que só poderia ser construída sob a negação em cascata da filosofia ocidental de até então. O segundo preferiu a compreensão da alma humana em contornos estéticos e emocionais, preferencialmente na expressão artística da arte cênica. O próprio teatro funciona como uma denúncia. Lírica, poética, inspiradora e original, contudo. E aqui se encaixaria o fator mais humano, a atuação do ator.

Nietzche assimilou ao seu eterno-retorno a vontade potente e criadora do humano como fator de transformação material da realidade. Interpretando-o, Deleuze afirmou que o eterno-retorno, ligado à idéia da vontade de potência, significa o eterno devir criador que recai ao humano. Stanislavski assimilou ao seu teatro-denúncia a emoção em atuar do humano, também criadora e potente, como fator básico de conscientização de seu público, sua platéia. Ambos entrelaçam-se aqui, creditando ao humano, ainda que em sua pequenez cósmica, a potencialidade inovadora de irromper no mundo, não apenas modificando-o, mas efetivamente reformulando-o, reestruturando revolucionariamente as suas bases antigas, recompondo e reorganizando os reais fatores de condução da vida humana, em suas relações sociais, políticas e afetivas.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

O todo de um vazio


Todas as palavras já foram ditas,
Mas nem todos os discursos foram feitos.
Há uma náusea da consciência plena,
Que é o sentimento de impotência diante da nossa natural incapacidade
Em vislumbrarmos e praticarmos um mundo que mais nos convém.

Olhar o todo, sentir o todo e ter a impressão de que entende o todo,
Interpretar o todo de tal maneira que todas as nossas atitudes pareçam fazer sentido,
Sentir o todo, vivê-lo em mínimos detalhes prazerosos e nos marcos transbordantes,
Achar que se é parte dentro do todo, ter tido fé nas religiões e nas filosofias,
Viver plenamente e descobrir por fim que nenhuma de nossas atitudes foi tão considerável.

Ensinaram-me a ter esperanças para que não padecesse,
Mas agora me questiono quanto à necessiadade de adoecermos
Para que só assim consigamos enxergar pela outra perspectiva:
A humilde e complacente perspectiva que está fora da esfera arrogante da consciência.

A consciência é a fonte de nossa arrogância
Unicamente pelo fato de nos tornar parte
De uma totalidade aparentemente discursável.

Viver não basta. É preciso expressar ao mundo as nossas emoções.

E depois de milênios de civilização,
Diante da insistência cega das ciências,
Que defendem, com seus discursos simbólicos e mágicos,
A possibilidade de extirparmos o sofrimento da existência
Ainda chega a nós o conhecimento de que alguns existem sem existir.

Vivem sem o pão e choram sem as lágrimas.

E depois de todos terem me castrado e me feito acreditar nessas coisas,
Depois de tanta fé que depositei na tentativa de qualquer algo de melhor,
A única coisa que resta no peito humano é uma constante dor de não se saber.
E, nessa angústia, criar nomes e expressões para tudo o que sente.

Então, por agora, eu penso que a solução para essa conjuntura humana terrível,
Para esse absurdo cotidiano do inexplicável,
Pode estar fora do discurso. Fora da ciência, da fé e da filosofia.
Fora daquilo que foi considerado humano.

Fora destas palavras.
Fora da sensação que elas até então vem causando.
Fora do contato que nunca teremos.

A solução está fora do nosso alcance,
E há um motivo muito maior do que pode presumir nossa arrogante consciência
Para que as existências concretas e imateriais da vida
Venham se estruturando dessa forma inevitável.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Epifania

Morrer é uma obra de arte.
Aceitar a morte é criar intimidade com ela.
Criar intimidade com algo terrível gera incômodo.
O incômodo que vem da intimidade da aceitação impele à atitude transformacionista.

Mas como transformar uma verdade aceita plenamente, como a morte?
Como discutir a morte sem antes encará-la como algo inevitável?
Como ter a plena certeza de que deixaremos de existir
E conseguir encarar o retorno à existência?

A experiência da quase-morte faz o humano perceber sua fragilidade.
A partir do momento que se descobre totalmente frágil
O humano aceita o mundo de modo a tornar-se íntimo dele.

E não o aceita apenas por suas coisas boas, prazerosas e estimáveis.
Mas justamente pelas coisas terríveis, absurdas e desprezíveis que concebem o mundo.

Deve-se aceitar a fragilidade de modo a torná-la íntima,
Aceitar a fragilidade e usá-la como um discurso pró-vida,
Aceitar a fragilidade e enxergar o outro como idêntico
(E Não um igual, ou semelhante, ou próximo, ou irmão),
Aceitar a fragilidade e indignar-se com a sistemática tentativa de tentar afastá-la,
Aceitar a fragilidade como negação dos discursos do poder, da segurança, da verdade,
Aceitar a fragilidade como contrapartida da morte,
E não como contrapartida da vida.

Aceitar e se encontrar frágil.
Aceitar e se identificar frágil.
Aceitar e se descobrir - nas mínimas atitudes, escolhas e gestos - frágil.

Ser frágil como imperativo político-existencial.
Ser frágil da maneira mais simples e transformadora.

Enxergar o outro como idêntico-frágil.

Fragilmente existir.
Fragilmente viver.
Fragilmente ser.

A propriedade privada, o lucro e a acumulação são a negação da fragilidade.
Prova de sua existência.

Não é preciso que pintemos o quadro da vida apenas em contato com a quase-morte.
Morrer é a obra de arte daquele que viveu segundo a verdade natural
De que se o bem não for realizado, não teremos outra chance para fazê-lo.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Desiludir-se

As ilusões são necessárias como projetos bem sucedidos de impossibilidades.
Pensam que a mudança é uma doce ilusão.

Horrível pensar que para se transformar é necessário
Que se reafirme algo projetado no passado ou no futuro.

O passado e o futuro como projetos são a negação do presente.

Passado e futuro deveriam ser afirmações faticamente plenas e paupáveis,
Probabilidades estatísticas da ocorrência de fatos empiricamente comprováveis.

E o presente, este sim, se tornar projeto.
Projeto não como projeção, projeto não como afastamento temporal.
Projeto não como a pretensão de se tornar o algo projetado.
Projeto não como a estipulação de regras e princípios norteadores de existências.

O projeto é a inversão do devir em jazer.
Não um, nem outro, mas justamente o exato instante de inversão.

Imagine o projeto como ponto de mutação.
Não como momento, não como encadeamento processual de procedimentos transformistas.

Imagine o projeto como o agir auto-consciente daquele que encara o absurdo.

O presente como projeto é subsumir o absurdo da vida a um quadro de escolhas responsabilizáveis.

Neste sentido, o absurdo da vida é composto de quadros de escolhas irresponsáveis.
Impossibilitadas de serem responsabilizadas porque nasceram da ausência de auto-consciência.

O projeto é o oposto do absurdo.

O projeto não tem a pretensão de negar ou solucionar o absurdo.
É tão somente a sua concretização oposta.

A mudança, realizada desse modo, é uma doce desilusão.

Desilusão é tornada o projeto bem sucedido de possibilidades.
É a negação da ilusão como o conforto daquilo projetado no passado ou futuro.

Perante o presente como projeto, o único sentimento possível é de desilusão
Ante a capacidade auto-conscientizada de que,
Uma vez o presente seja tornado projeto,
O que será e o que já foi são amputados do fluxo de acontecimentos.

O projeto torna totalmente possível qualquer forma de presente.

O projeto concede ao ser desiludido a capacidade
De agir de forma consciente e responsável dentro do absurdo da vida,
Opondo o projeto ao absurdo. Sem negá-lo, mas apenas ausentando-o.

Negar o absurdo seria uma ilusão.

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Segredo da concha

Uma poesia é verdadeiramente bela
Não por todas as coisas que disse,
Mas justamente por aquelas que, dizendo,
Acabou deixando de dizer.

Tem me faltado esse desabafo.
Tem me faltado a ausência alheia para o encontro consigo.
Tem me faltado essa solidão tão importante para que realmente sejamos.
Tem me faltado palavras para descrever coisas talvez inexprimíveis.
Tem me faltado a audácia para tentar descrevê-las.

E o que tem me sobrado é razão.

Tem me faltado a presença constante de pessoas as quais odeio.
Tem me faltado descrétido em relação a mim mesmo.

Sobra-me certezas.

Tem me faltado descontrole.
Tem me faltado lágrimas por motivos bestas.
Que chorar, essa ocasião tão especial, só faço se valer a pena.

Mas lágrima, que não poderia deixar de ser lágrima,
Só é realmente para ocasiões que não as merecem,
Sob pena de só chorarmos para aquilo que aos nossos olhos vale a pena.
Se a gente chora, é justamente porque não mais vale a pena.
Valesse e cantaríamos.

Tem me faltado paciência.
Tem me faltado uma saúde plena.
Tem me faltado tantos esportes e tantos exercícios físicos.
Tem me faltado o prazer de estar só, de mim para consigo.

O que me sobra é coisa demais.
Tão mais que transborda,
E a cada transbordada,
Vem a pobre razão achar que pra tudo há ciência.

Se eu realmente tivesse certeza de alguma coisa,
Escreveria para que ninguém lesse.
Afinal, se escrevo e leio, é porque tenho a fé de que a verdade nunca chegará.
Chegasse e se acabaria o mundo.

Isso é o que tem me faltado:
A inexplicável coceira que sofre a curiosidade
Quando o sentimento se resume ao mistério.
Sentir o mistério.
Ser o mistério.
Querer o mistério.
Porque o mistério é sim verdadeiro.

Tem me faltado mistério.
Tem me sobrado palavras ordenadas em versos.

Caos é a única coisa que realmente está infincada
Nos cérebros e corações da humanidade, apenas pela força do hábito.
Não fosse o caos, não tentaríamos nos ordenar.
Fosse uma ordem singelamente e timidamente imposta,
Para vir um louco suficientemente audaz
E desafiá-la toda.

Arrepio do lado esquerdo.
E mistério nas juntas.
Tem me faltado a dúvida de ser o que sou.
Me sobrado o achismo de o saber.
Não fossem os saberes meros achares,
Erros não haveriam para que nos construíssemos.

A vida se faz com erros.
Só a ciência consegue ser feita com acertos.
O importante é o mistério,
Guardado em cada olhar transeunte da existência,
Viagem de ida, ferida composta.
Fosse uma única dor
E já não saberíamos qual o prazer de viver.

domingo, 5 de outubro de 2008

Relativizando...




A existência, o ser e a realidade não existem. São todos pontos de vista, entes relativistas. São perspectivas de acaso, são hormônios aflorando, são sentidos incutados e logo em seguida comunidados.

As coisas não são. Nada é. As coisas se tornam.

Ultimamente tenho me incomodado com a linguagem, mais especificamente uma de suas espécies: a língua. Outro dia me disseram que atualmente na filosofia a moda é por em cheque a língua enquanto estrutura, principalmente em relação à existência (ausência?) de um ser agente por trás dela: ora, não existe ser agente por trás da língua, posto que é ela mesma, enquanto ente discursivo, que faz nascer o ser agente.

Mas e agora, o que resta?



Já que é pra ser...


Se é a roupa que incomoda, que seja uma nudez completa.
Se for muita fome, gula de vez em quando não é pecado.
Se queres fazer uma casa, constrói uma creche.

Se for pra doar, doa a ti mesmo.
Não aquilo que sobra e que resta de ti.
Mas se é pra doer, dói aqui mesmo
E que corroa logo de uma vez.

Se for pra sofrer, aproveita pra aprender.
Se quiser amar, que seja sem parar.

Se resolver ficar parado, que seja pra admirar aquela borboleta.
Se for protesto, faz revolução.
Se for revolução, causa mudanças.
Se não causar mudanças, pelo menos sê o mártir daquilo que acreditas.

Sê filósofo-prática da filosofia-teoria da tua cabeça.
Assim, as coisas podem dar certo.

Se for pra ajudar, faz só a tua parte.
Melhor que querer fazer a do outro, se desgastar e desistir das duas.

Se quiser ter um filho, procura pensar bem a respeito.
Se já pensou bem, tem logo dez filhos.

Se for pra casar, que não seja nas formalidades da Igreja e do Direito.
Casa na praia. Não vai ser só de fim de semana.
Será pra sempre.

Se decidir fazer arte, dá mais que corpo e alma.
Dá aquilo que tu sabes que existe, mas não descobriste o nome que tem.

Se for infância, gruda o pirulito no cabelo, rala o joelho,
E não deixa que os adultos condicionem sua criatividade
Nem que interrompam sua imaginação.
Mas se for velhice, não se engana querendo fazer aquilo que não foi possível até agora.
Ao contrário, repete as experiências mais maravilhosas e prazerosas que já tiveres experimentado.
Porque, no fim das contas, a vida é uma tentativa refinada de eterno-retorno
A todas as boas coisas que aprendemos, presenciamos e sentimos.

Se for saudade, já chora uma hora seguida.
Mas se é pra dormir, abraça e dorme junto.
Se é trabalho, pensa no outro.
Se é técnica, domina-a bem e faz melhor.

Enquanto for poesia, será companhia.
Enquanto for amizade e amor, será sacrifício.

Querer um mundo melhor é ser uma pessoa melhor.
Se for pra ler, que leia bastante.
Se queres aprender, abre os olhos, vê, vive e aprende.

Se não queres esquecer, anota, fotografa, filma e abraça.
Abraçar é o que costuma dar mais certo.

Só não esqueça que sem ser não há condição.
Se tu não és, não vai ter como.
Sê muito, então.

quarta-feira, 25 de junho de 2008





Só pra lembrar, tudo que aparece escrito aqui é dos editores do patifocratas, sob responsabilidades dele né... Pra tomar cuidado com os bicudo, bando de bico sujo.

Sem tempo pra textos melhores que essas poesias, mas tá vindo algo bom.

Reparem o Nietzsche na foto. Quadro se chama As três metamorfoses de Nietzsche, referentes ao Assim Falou Zaratustra: camelo, leão e criança. Procurem ler um pouco dele algum dia.




Nos é dadu às vezes ser saudade...


A gente sente saudade ou a gente tem saudade?
Será a saudade um sentimento ou uma pertença que carregamos conosco
Desde o primeiro instante em que não nos encontrávamos com a primeira coisa que nos gerou prazer?

É verdade que a palavra saudade só existe em português,
Mas que palavras pra falar da ausência que pessoas e momentos geram nunca faltam.
Só que saudade é uma palavra muito pequena pra carregar tantos mundos nas costas.

Teriam os homens fragmentado o tempo a fim de que sentissem menos saudade?
O tempo não é uma coisa só, uma mescla de devir com jazer, um já ser que está por vir?
E sendo essa coisa só, não seria o tempo simplesmente a época-agora
Em que tentamos realizar aquilo que tanto nos faz bem?

Saudade existe pelo apego. Quem não se apega não sente falta.
Mas não é por justamente já sermos uma infinita saudade trancada em forma de corpo
Que não paramos de tentar encontrar algo a que se apegar?

Pra se livrar do apego é preciso se livrar do desejo de apego.
Pra se livrar desse desejo é preciso se livrar da saudade que o antecede.
Pra se livrar dessa saudade, como que faz?

Será que inventaram a lenda do paraíso perdido
Pra poder explicar de onde vem essa saudade-primeira que acontece nas pessoas?

Seria a primeira saudade o nascimento, porque sentimentos falta do útero de nossas mães?

Será a vida uma eterna tentativa de se reaver realizado aquilo que já um dia gerou felicidade?

Será que o amor é a única possibilidade de quebrar com essa saudade genealógica?

Será que todos os valores que aceitei e que assim se tornaram também meus;
Todas as idéias que somei e que assim, mudando, se tornaram também minhas;
Todos os medos que sobre mim surgiram e através de mim se desfaleceram
São uma mescla de atos processuais gerados pelos seres humanos
Na gradativa medida em que, através deles, busca-se restaurar o estado de completude
Do qual a saudade é o estado-contraditório?

Mas a saudade é um estado ou uma permanência?

Se for permanência, será a saudade a única coisa
Que permite que o ser humano não se entregue e prefira não existir?

Se assim for, o que os filósofos buscam é a saudade.
Como razão primeira e consequência última.

A saudade é uma manifestação divina da condição humana:
A única espécie capaz de se aniquilar através de uma sensação.